Por que precisamos pensar em uma política de preservação histórica para Vitória da Conquista?

por Maris Stella Schiavo Novaes**

A equipe do jornal televisivo da UESB está trabalhando em uma série de entrevistas que estão direcionadas a se pensar na “identidade” de ser um cidadão de Vitória da Conquista. Iniciam este trabalho trazendo de novo à população o debate sobre a preservação do patrimônio arquitetônico da cidade. Ou do que ainda resta deste patrimônio. A CATROP foi chamada a colaborar na execução desse trabalho.

Foi solicitada à CATROP a indicação de cinco residências para serem documentadas. Muito embora, a pesquisa sobre antigas casas ainda esteja em processo de levantamento de fontes, algumas inferências já são possíveis afirmar que justificam a necessidade de preservação do acervo arquitetônico da cidade.
A primeira sugestão da CATROP à equipe da UESB foi uma casa localizada no Bairro Brasil. A aparente arquitetura neoclássica, por si só já justificaria a manutenção do imóvel. Aprofundando mais em justificações, a casa foi construída como sede da imensa propriedade de David Gusmão, um abastado tropeiro. Por décadas a fazenda serviu como rancho de pouso. A velha casa está em mãos de seus descendentes tendo sofrido poucas modificações ao longo dos seus mais de cem anos de edificação. A responsável pela residência é a sua neta Zildeni Ferreira de Oliveira.

Zildeni tem uma forte relação de apego à casa onde nasceu e vive até hoje. Embora sem recursos suficientes para manter a preservação em estado original conforme gostaria, sem alterar a estrutura histórica, sente-se impossibilitada em conseguir realizar tal tarefa sozinha ou apenas com o apoio de parentes mais próximos. A cada reboco caído, com a passagem dos dias, ela diz sofrer um pouco mais, pois, sente “como se ela desintegrasse. Acabando diante dos meus olhos e das minhas mão, mas eu não posso fazê nada além do que já venho fazendo… E eu não gostaria que essa casa acabasse de vez…”

 

A questão levantada por D. Zildeni não é um caso isolado. Existe em nossa cidade uma gama variável de familiares que se encontra na mesma condição: divididos entre a vontade de preservação de suas identidades, dos trabalhos e das memórias ancestrais; quanto conscientes do valor de seu patrimônio particular para o conjunto da população da cidade, contudo, consideram-se impossibilitados de executar sozinhos a manutenção e a permanência dos referidos imóveis diante das tantas urgências da vida cotidiana. Há casos em que estão arriscados em perder suas casas até mesmo por dívidas públicas, a exemplo do IPTU de muitas dessas residências.

Em depoimento aos historiadores, Zildeni narra em detalhes lembranças de suas memórias infantis quando a casa abrigava tropeiros de passagem por Vitória da Conquista. Tanto alugando mangueiros (pastos de engorda), negociando (na casa funcionava uma venda), quanto apenas como rancho de pernoite ou dias, a casa teve durante muitas décadas uma atividade intensa. Ao longo dos anos, a propriedade foi sofrendo alterações diante das necessidades e escolhas dos parentes, tendo sido todo o antigo patrimônio da fazenda reduzido à área do velho casarão, que ainda se mantém, apenas pelo empenho pessoal de Zildeni e filhos.

 

Talvez fosse o caso, das autoridades administrativas de Vitória da Conquista despertarem para a necessidade de efetivação de uma política pública de valorização da cultura e preservação histórica do município. Para tanto, é preciso agilidade, muito empenho e união, pois, poucos são os equipamentos materiais que ainda restam. Há muito patrimônio imaterial a ser sistematizado e documentado. Contudo, a importância histórica de determinados registros que diz em respeito ao coletivo da cidade não pode ficar restrito à hercúlea tarefa de um munícipe, de uma única organização ou de uma família. Também não poder servir apenas como instrumento de apropriação discursiva e isolada desse ou daquele bem intencionado que tenta tomar pra si a gloriosa auréola de patrono da história conquistense. Terminantemente, não é tarefa isolada nem fácil de ser executada.
 

Trazendo novamente a discussão ao espaço público, a UESB está fazendo a parte dela. A CATROP com todas as limitações possíveis e imagináveis, a cada novo trabalho amplia sua contribuição, bem como tantos outros pesquisadores que isoladamente se ocupam com a história de Vitória da Conquista. Agora só falta o Poder Público tomar para si a responsabilidade de unificar os debates, as práticas, os discursos e viabilizar meios para que a identidade do conquistense seja reconhecida, respeitada e preservada às gerações futuras.


** Maris Stella Schiavo Novaes- Licenciada em História pela Uesb de Vitória da Conquista Bahia; Com pós-graduação em Educação, Cultura e Memória, pelo Museu Pedagógico/Uesb. Presidente da Ong Carreiro de Tropa – Catrop, Coordenadora do Núcleo de História, Cultura e Memória da Catrop. 

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