Acarajé não é de Jesus, é de Iansã!

por Maris Stella Schiavo Novaes**


Se tem uma coisa que me tira do sério é essa história de acarajé de Jesus! 
Pai eterno, que contra senso! 

Eu sei não dizer por quais forças se tornou possível, mas, o fato é que Vitória da Conquista está enfestada de barracas do intitulado “acarajé cristão”. Aliás, não só aqui! Esse é um fenômeno crescente na mesma proporção em que crescem as igrejas ligadas ao neopentecostalismo.

As pessoas sejam, por necessidade financeira e/ou outros motivos sem aparência externa formalizada, afixam suas barracas em logradouros públicos e assumem a venda dessa iguaria descaracterizando-o de sua matriz simbólica original, comida-de-santo. Acarajé é a bola de fogo de xangô e Iansã! Portanto, é considerado um alimento sagrado dentro do ritual do candomblé. 

Em seu aspecto cultural, é tombado pelo IPHAN como Patrimônio Imaterial inscritos no Livro dos Saberes 14/01/2005. Este Livro cuida de implantação de políticas de salvaguarda de saberes e difusão de conhecimentos sobre as tradições. Conforme registrado no dossiê do IPHAN.


O mito da criação do acarajé 

Segundo o Prof. Dr. Itamar Pereira Aguiar, um comprometido pesquisador sobre a temática do candomblé em nossa cidade, acarajé é uma palavras composta da língua iorubá acará, akárà (bola de fogo) e je, jè (comer) e sua origem está explicada por um mito nas relações de Xangô (Sàngó) e suas esposas Iansã (Yásan), Oxum (Òsùn) e Obà. Conta a lenda que Iansã foi à casa de Ifá buscar um preparado para seu marido. Ifá entregou o encantamento e recomendou que dissesse a Xangô para comê-lo e ir falar ao povo. 

Mas, Iansã ficou desconfiada de que se tratasse de um veneno, e decidiu provar a porção, para se confirmado, pudesse poupar a vida de seu amado. Como nada lhe aconteceu, Iansã então seguiu viagem e entregou a encomenda a Xangô com as observações de Ifá. Quando Xangô começou a falar de sua boca saíram labaredas de fogo e o povo passou a saudá-lo. Desesperara, Iansã acudiu o marido e começou a gritar Kawô Kabiesilé. Neste momento, as labaredas também saíram da boca de Iansã, quando o fogo, diante de força imbatível começou a saudá-los: Obà nlá Òyó até babá Inà (grande rei de Oyó, rei de pai do fogo).



O fogo é a grande arma de Xangô, o senhor da riqueza. Nos cultos africanos, Xangô é inimigo da mentira, o Orixá da Justiça. E diante da exposição do mito, atribuir o acarajé a Jesus, não te parece uma grande mentira, e uma enorme injustiça?


Para não deixar nenhuma dúvida

Antes que eu me esqueça, ou algum desavisado tire apressadas, conclusões, não sou seguidora do candomblé. Portanto, este artigo foi escrito com o foco específico de valorização cultural da importância dessa iguaria pelo povo-de-santo. Que ao mesmo tempo em que se trata de um alimento sagrado, também é meio de vida de muita gente ligada aos terreiros.


Outra coisa importante a frisar é que  baiana não é patrimônio de Salvador, é da Bahia! E do Brasil!

E temos sim em nossa cidade uma candeia acesa a merecer reconhecimento público pela nobreza do ofício e pela resistência: Salve, Dona Dió, uma legítima  baiana do acarajé em Vitória da Conquista!

Mas, ela precisa de mais companhia do povo-de-santo, não é gente?



Quanto aos neopentencostais vendedores de acarajé, fico pensando se a excelsa figura do Cristo Jesus serve apenas como uma exortação bíblica exposta na barraca com a simplista intenção mercantilista… Parecem desconhecer as sábias palavras do mestre registradas em  Mateus, 7: 21: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” E para isso temos que nos amar e respeitar em nossas diferenças. 
                                                                                                      
** Maris Stella Schiavo Novaes é Presidente da Ong Carreiro de Tropa – Catrop, Coordenadora do Núcleo de História, Cultura e Memória da Catrop; Licenciada em História pela Uesb de Vitória da Conquista Bahia; Com pós-graduação em Educação, Cultura e Memória, pelo Museu Pedagógico/Uesb. 


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28 comentários sobre “Acarajé não é de Jesus, é de Iansã!

  1. Entendi que o Acarajé foi criado por orixás, que outrora foram seres humanos como conta a história, mas se o acarajé foi feito por seres humanos quem foi que criou estes?
    Logo, se foi feito por seres humanos que se tornaram deuses, podemos dizer que o Criador que deu inteligência a estes para tamanha criação, mas Deus é quem está acima de todos!! A Deus é que pertence toda a ciência.

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  2. Jeane,
    Segundo a mitologia africana todos os orixás foram criados por Olorum, o Deus supremo do povo Yorubá, também conhecido por Olodumáre.
    E sim, você está certa, Deus (Olorum ou Olodumáre) foi quem deu inspiração para que esses mortais criassem o acarajé, que é uma comida ritual no Candomblé,sendo comida consagrada ao orixá Iansã, Senhora dos ventos e das tempestades.
    Também, segundo a história, o acarajé foi levado à África pelos árabes, durante as várias incursões realizadas por estes povos.
    Espero ter colaborado.

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  3. Bom, se foram os árabes que inventou o acarajé ele não é nem de Jesus nem de Olurum,levando em conta que os árabes acreditam no deus dos hebreus. O candomblé apenas adaptou esta iguaria aos seus rituais.

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  4. No último domingo (dia 14/02/10) voltando de uma festa de Marujo, de um terreiro, a sagrada fome me abateu, e no desejo ardente por saciá-la, avistei uma b arraca onde vendiam-se acarajés. Estavam encerrando pois já passavam das 22 hs. Aproximei-me e pedi um e meu amigo pediu outro tb. Quando iamos partir, a senhora que vendeu disse: Jesus abençõe amados! Voltei e perguntei: É acarajé “cristão”??? Ela respondeu que sim. Eu coloquei o acarajé sobre a barraca e disse: Perdi a fome. E meu amigo também fez o mesmo. Ela perguntou: Mas pq??? Eu disse: a senhora deveria se envergonhar, pois assim como não vendemos hóstias e nem bíblias nos terreiros de candomblé, vocês deveriam nos respeitar e não vender nossas comidas sagradas nos seus templos. Aliás, vcs estão vendendo alimentos dos pagãos em seus templos. Cuidado para seu Jesus não baixar aqui com uma corda e quebrar tudo. Sem nenhuma resposta ela ficou calada junto com as “irmãs” da igreja dela. O Pastor ficou olhando perplexo e calado e eu fui para uma barraca de cachorro quente e assassinei quem me incomodava. Se houver no Brasil mais pessoas que se manifestem contra esses “intrusos” religiosos, talvez nos dêem mais respeito…

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  5. Queridinhos

    Esse povinho de Igreja é tão marmoteiro quanto eu. Nos terreiros tradicionais acarajé e abará pertencem a Oyá e Xangô respectivamente. Mas ao contrário, no culto deles, acarajé e abará, quem vende é Jesus. Nova forma de culto: inovadora e sem preocupação com o fogo. É axé cristão genteeeeeeeeeeee!!! Adoro iniciar cristãos (de preferencia evangélicos) no meu axé. Eles são excelentes marmoteiros…

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  6. Queridos,
    A questão é muito complexa mesmo.
    Se apropriar de um bem material de uma determinada cultura é deplorável.
    Mais se eles não tem cultura? Fazer o que, é roubar e usurparem a dos outros.
    E com relação aos árabes, essa hipótese não é confirmada, mais que o acarajé é de Òrisá e assim veio para o Brasil ninguém tem dúvida, sendo assim, é um patrimônio do povo-de-santo, esse mesmo povo tão criticado pelas outras crenças, crenças estas que aproveitam da nossa comida-ritual para fins comerciais, mais não os respeita quando estão em seus devidos lugares, que no caso, dentro de um Templo de Candomblé sendo distribuído aos crentes na religião por Oyá.
    Eparrey!
    E a verdade sempre vem a tona, mais cabe a nós, como herdeiros da rica tradição africana, preservá-la e mostrarmos o que é nosso, e não aceitar que pessoas como essas desfigurem o nosso Acarajé, chamando-o de “Bolinho de Jesus”.
    A violência é grande, mais a luta deve continuar, e depoimentos como o de Ogãn Ney só faz fortalecer a nossa luta na delimitação dos nossos espaços de luta.
    Àse a todos!

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  7. Aos queridos leitores, favoráveis o não ao ponto de vista exposto no texto, meu agradecimento, por aceitarem o convite ao debate. Pensar sobre nossas (in)tolerâncias, é sempre um exercício de autoconhecimento.

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  8. Há muito venho lutando contra essas vendedoras de acarajé (nem podemos chamá-las de baianas, pq além de não se trajarem como tais, distorcem todo o significado original da comida).
    Fico feliz em ver que compartilho opiniões com demais pessoas.

    Como disse o Ogã, ninguém vê um filho-de-santo vendendo hóstia, bíblia, óleo ungido, ou coisa parecida nos lugares. Já até comentei isso numa comunidade do orkut. Caso fizessemos seríamos imediatamente massacrados pela massa cristã (evangélica ou católica).

    Isso na verdade é uma guerra. Poucos percebem. Primeiro atacam os símbolos. Depois as pessoas, templos, dogmas, enfim.

    Percebam alguns ritos praticados por algumas neopentecostais: descarrego, fogueira de israel, 7 banhos, e por aí vai. Lá, os pastores dizem que os banhos de folha, os sacudimentos dos terreiros são coisas de Satanás, mas tais ritos dentro das Igrejas garangens é algo santo, puro e verdadeiro (desde que vc pague a quantia sagrada em “cash” ou em suaves parcelas a perder de vista. Aceitam cartão de crédito, promissória e trabalhos forçados)….

    Boicote ao Acarajé cristão já!!!

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  9. O nome disse é religiofagia. (saliento que esse termo não é meu, li em algum artigo).

    Roubam símbolos e dogmas de religiões e grupos mais consolidados e fortes, descaracterizam completamente o fruto do roubo e depois o revestem com valores novos e mais adequados a ação evangelizadora (???)

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  10. Parabéns…Li posts muito interessantes e dos quais concordo plenamente (menos o do tal cidadão anônimo…rsrsrs). O do “Ney Akyw” então…fantástico…faria exatamente a mesma coisa… . Gente, realmente é preciso colocar os pingos nos “is” e mostrar a certas classes q Candomblé é cultura, e cultura essa “AUTENTICA”, sem plágios ou cópias de outras crenças…(o mesmo não se pode falar de outras culturas religiosas, rsrsrs), portanto, e como mostram vários Itans, O ACARAJÉ é nosso e acabou. Que se envergonhem aqueles q o vendem em nome de outra cultura religiosa senão o do nosso CANDOMBLÉ.
    Rui

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  11. Antes de qualquer coisa saldo a todos os orisás, salve Esú, que protege e cuidas dos caminhos, Oyá, senhora do vento e dos trovões, e Songó, rei de Oyó, e Osáàla, pai de todos os orisas…
    Essa história de religiofagia, não é novidade, faz parte da história da humanidade em todos os quatro cantos do mundo… Por conta disso de muitas culturas sabe-se com certeza apenas que elas existiram e todo o resto são especulações, se nós povo de santo (chamo aqui de povo de santo todo aquele que respeita e a apoia a causa dos crentes nos orisás)por a cara a tapa, enfrentar e mostrar nossa cultura, mostrar para todo mundo o que é nosso, não podemos mais nos esconder… Assim como a bíblia é de Cristo, O ACARAJÉ É NOSSO, tornemos público tudo o que essas igrejas de garagem aprenderam em nossos terreiros e usam contra nós. Temos que fazer isso se não quisermos cair no esquecimento da história, se não quisermos que nossa cultura seja consumida pelo neopentecostalismo.

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  12. Concordo com vocês quando falam que as igrejas de hoje em dia estão usando artificios do camdomble para ganhar dinheiro em cima das pessoas. Sou discipulo de Jesus ( para nao dizer evangelico já que esse termo esta mal visto por causa de pessoas desse tipo ) e respeito que vocês dizem acarajé ser consagrado e usado como ritual. Mas vocês só estão dizendo dos cristãos mas existe muitas pessoas hoje em dia que fazem o acarajé que não são do camdoble e vende como forma de sobrevivencia. Eu amo acarajé e não vou mentir que eu como pq para mim antes de mais nada acarajé e uma receita como qualquer outra. E si a minha mente nao me condena entao eu como em paz. Marcos 7:18 e 19 1 Corintios 8. Então pessoal o acarajé sendo de Jesus ou de iansã para mim sempre vai ser apenas comida. Que os fracos de consciencia me perdoem.

    Ass: Daniel

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  13. Acho meio dificil vocês mudarem a situação não só pelos ditos evangelicos e seus “bolinhos de jesus” mas porque hoje em dia si vende acarajé por sobrevivencia e não mas por cultura afro e isso já estava acontecendo antes mesmo dos evangelicos começarem a fazer os seus ditos bolinhos. Aonde o governo vai achar trabalho para tantas pessoas que vivem hoje de venda de acarajé? A maioria das pessoas que hoje em dia si diz baiana de acarajé fazem por sobrevivencia e não por participar de Terreiro. Acho que vocês estão preocupados mas pela concorrencia já que no inicio o acarajé só era feito por Baianas de Terreiro do que com cultura em si e a culpa da fama do Acarajé ter si espalhado no mundo são do governo que si preocupou somente com o aumento do turismo na bahia fez com que naturalmente aparecesse mas vendedores de Acarajé. Resumindo tudo: Bem vindo ao CAPITALISMO.

    Ass: Daniel

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  14. em partes de fato vc esta correto Daniel… porém acompanhe meu raciocínio… o Acarajé é uma parte da mitologia dos Orixás, logo dizer que o acarajé q aquela senhora lá da “praça” vende é de Jesus não é ético apartir do ponto de vista de q se eu pegar uma hóstia católica e começar a vendê-la como objeto consagrado Yansã será desrespeitoso com a igreja católica, ou como pegar a bíblia e mudar todos os nomes de seus personagens e dizer q eu que escrevi… o acarajé é um bem cultural da Bahia, se vc quer vender acarajé e n é de santo por mim tudo bem desde q vc n diga q aquilo q vc esta vendendo é um tal acarajé ou “bolinho” de Jesus, pois independente de vc praticar a religião ou n, como vc msm disse, vc usou uma receita de acarajé (p quem n sabe existem varias formas de se preparar o acarajé)p fazer aquilo q vc esta comercializando n precisa mudar o nome ou dizer é consagrado a Jesus ou ao orixá… diga apenas ACARAJÉ!

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  15. Concordo Plenamente com você quanto ao nome e realmente isso é uma falta de respeito dos ditos evangelicos. Eu moro em salvador e apesar de conhcer muita gente cristã que faz acaraje nunca vi ninguem chama-lo de bolinho de Jesus. Si existe isso com certeza são pessoas sem cultura e que despreza a cultura alheia. Pois Jesus não aceita nenhum alimento como ritual, alias não existe ritual nenhum com Jesus e fora que Jesus esta longe de ser religião. Jesus somente deixou a simplesidade das suas palavras no qual a prática é tão simples que as pessoas nao conseguem admitir que eh somente aquilo e distorce tudo ao seu bel prazer e interesse. Pois para Deus não há diferença si comemos comida consagrada ou não como coloquei a referencia de 1 corintios 8.

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  16. Olá meus amigos eu penso da seguinte forma o acrajé é algo realmente indiscutivel pois qualquer ser humano sabe que é uma comida típica do candomble. Pois tenho certeza q o evangelicos ñ são tão ignotranntes ao ponto de querer omitir esssa verdade, acredito que acaba sendo uma falta de respeito com a as pessoas do axé esse é um dos espaços que muito gente do axé precisa e ñ esta encontrando o espaço devido, pois acho que os evangelicos ficou pra vender Biblia, oléo ungido, pregar a palavra isso sim!!! Com ceretza ñ iria ceitar q nós do candomble colocassemos uma barraca de acaraje ao lado da igreja ou seja seria uma intolerancia então meus amigos evangelicos vamos ter conciencia e saber que a cultura Afro é rica e muito rica!!! Respeite-nos!!!

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  17. Isso so prova a falta de cultura desses evagelicos. Sinto um orgulho imenso de ser baia, por essas peculiaridades que so a cultura baiana tem. Por favor nao permitam que apaguem o mais autentico que a nossa Bahia tem, que nos diferencia do resto do pais que e a heranca africana, em todo os aspectos. Se desaprovam o candoble e outros costumes africanos porque esses evangelicos nao vao vender pastel entao, querem converter ate o acaraje, so vindo de gente alienada mesmo. Tenho 10 anos fora da Bahia e sonho em retornar e comer o maravilhoso acaraje de Dona Dio, porque esse dia vai chegar e acaraje so de baiana autentica. Um abracao a todas.

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