Um meio de fazer fortuna

Mais do que um meio de transporte, as mulas dos caminhos de tropa eram um negócio rentável entre os séculos XVIII e XIX

Carlos Eduardo Suprinyak

Governar é abrir estradas… para as mulas passarem. Desde que os portugueses descobriram ouro no Brasil, tanto o escoamento da produção colonial quanto o abastecimento das regiões produtoras foram feitos no lombo dos animais de carga. Porém, mais do que apenas viabilizar o transporte das riquezas no interior da Colônia, os animais que circulavam pelos caminhos das tropas significavam, eles próprios, intensa atividade econômica. Entre os séculos XVIII e XIX, o comércio de animais de carga gerou imensa prosperidade, foi alvo de pesados impostos e fortaleceu a economia das regiões Sul e Centro-Sul do Brasil.

Entre as diferentes espécies de animais de carga, as mulas levavam ampla vantagem sobre os cavalos, realizando em grande número a travessia que partia do extremo Sul, onde eram criados, na região do Rio da Prata, rumo a São Paulo e Minas Gerais. No auge do negócio, em 1856, foram transportados mais de 70 mil animais. Destes, 61 mil eram mulas.

Antes do surto minerador, a criação de bestas de carga no extremo Sul direcionava-se às minas de prata de Potosí, na América espanhola (atual Bolívia). No século XVIII, a intensificação da extração aurífera nas áreas centrais do Brasil trouxe aumento da demanda por transporte de carga. As mulas eram necessárias tanto para escoar o produto das minas quanto para abastecer a crescente população da região com gêneros trazidos de outras localidades. E as bestas de carga platinas mostraram-se especialmente aptas a realizar estas tarefas em meio à geografia acidentada de Minas Gerais.

Nada disso seria possível se não existissem estradas ligando o Sul ao Centro-Sul. E em 1727, elas de fato não existiam. Naquele ano, a Coroa encarregou o sargento-mor Francisco de Souza Faria de chefiar uma missão com o objetivo de abrir aquele que ficaria conhecido como Caminho das Tropas, ou Caminho do Viamão. Por dois anos Francisco liderou a difícil empreitada, contando depois com a decisiva intervenção de Cristóvão Pereira de Abreu (1680-1755), considerado “o primeiro tropeiro por excelência”. Fidalgo português, Cristóvão fazia fortuna desde 1690, quando ainda atuava no Rio de Janeiro. Ele foi arrematante do contrato de arrecadação dos quintos sobre o couro – muito lucrativo – desde 1702. Em 1731, os dois inauguravam o caminho ligando Viamão (na atual Grande Porto Alegre) a Sorocaba, passando por Lages (atual Santa Catarina) e pelos campos de Curitiba. Como retribuição pelos serviços prestados, Cristóvão Pereira de Abreu foi agraciado pela Coroa portuguesa com nova concessão: durante doze anos, teve direito à metade do valor obtido pela cobrança de impostos sobre os animais que transitavam no Caminho das Tropas.

A consolidação daquela rota transformou a feira realizada anualmente em Sorocaba no principal centro de comercialização de animais da Colônia. Na passagem entre as décadas de 1770 e 1780, a movimentação naquele registro apontava um volume médio de oito mil animais de carga por ano. A maioria seguia viagem até a região mineradora.

Havia espaço para comerciantes de todos os portes. Mais de 70% das tropas conduzidas por Sorocaba eram formadas por menos de 50 animais, entre mulas e cavalos. No outro extremo, encontramos casos de tropas de enormes dimensões, contendo mais de 500 animais. Mas a relativa facilidade com que se entrava nesse mercado não evitava o alto nível de concentração econômica característico da atividade. Mais de trezentas tropas de pequeno porte, conduzidas entre 1779 e 1782, transportaram juntas pouco mais de 5.700 animais. Por outro lado, apenas as seis maiores tropas do período continham juntas quase 4.500 animais. 

As enormes possibilidades de ganho atraíram para o comércio de animais figuras de relevo, como capitães, tenentes, alferes e comendadores. Também tomaram parte indivíduos destacados na vida política regional, como vereadores, delegados e juízes de paz. Até mesmo alguns membros do clero ocuparam seu lugar no próspero negócio.

Entre os grandes negociantes de tropas, merece destaque João Rodrigues de Macedo (1730[?]-1807), um dos habitantes mais ricos da Colônia durante a segunda metade do século XVIII, que atuou em diversos ramos de atividade ao longo da vida. Envolvido com os inconfidentes mineiros, livrou-se das acusações graças à sua influência política e econômica. Em seus negócios com tropas, adquiria animais diretamente na região de Viamão, de onde os trazia por meio de condutores de confiança. No curto período entre dezembro de 1779 e outubro de 1780, foi responsável pela passagem de cinco grandes tropas pelo registro de Sorocaba, totalizando quase quatro mil animais. Seus negócios compreendiam então mais de 30% do total do mercado de mulas.

O dinamismo do mercado transformou o negócio em um dos eixos econômicos fundamentais do Centro-Sul do Brasil. Durante o período imperial, o comércio de animais de carga conheceu seu apogeu, sob o impulso das atividades canavieira e cafeeira. Nas décadas de 1840 e 1850, o volume anual de animais que entraram na província de São Paulo vindos do Sul poucas vezes esteve abaixo de 40 mil unidades – em 1856, ano de pico, mais de 70 mil animais subiram o caminho do Viamão.

Quanto mais valiosa a atividade, maior o zelo oficial para acompanhá-la – e cobrar por ela. Os “direitos” sobre animais, imposto cobrado sobre sua entrada na província de São Paulo, eram recolhidos por um eficaz sistema de fiscalização. O tributo era pesado: para cada mula e cada cavalo, deviam-se pagar direitos no valor de 2$500 e 2$000 réis, respectivamente. No auge do negócio, o imposto sobre animais de carga chegou a representar 10% do total da receita de São Paulo. A importância do tributo era tal que, às vésperas da emancipação da província do Paraná, em 1853, sua cobrança foi temporariamente suspensa, e depois retomada em novo registro, de modo a evitar sua apropriação por parte da nova província.

O comércio de tropas atingiu vasta área do território brasileiro durante o Império. As regiões envolvidas de forma mais intensa eram, evidentemente, o sul de São Paulo e o Paraná. Localidades como Lapa, Sorocaba, Castro, Itapetininga e Ponta Grossa eram os centros mais atuantes na condução, invernagem – período de engorda das tropas realizado após a cumprimento do percurso, mas antes de sua venda – e comercialização das tropas. Habitantes do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e demais regiões da província de São Paulo também participavam ativamente do negócio, que, esporadicamente, contava ainda com mineiros e fluminenses.

Ao longo do século XIX, a estrutura do mercado de animais preservou seus traços fundamentais: facilidade de entrada, mas com concentração do poder econômico. Algumas tropas ultrapassavam 1.500 animais, chegando mesmo à incrível marca de 2.500 cabeças. O preço de compra de uma besta mansa nos territórios do Sul oscilava em torno de 25$000. Em Sorocaba, esta mesma besta poderia ser vendida por até 60$000. Assim, uma tropa de 500 animais representava um investimento de aproximadamente 12:000$000 (doze contos de réis), podendo ser revendida na feira de Sorocaba por até trinta contos – valor equivalente ao de quinze ou vinte escravos homens adultos, no mesmo período.

Com a disseminação das estradas de ferro durante as décadas de 1860 e 1870, os animais de carga perderam parte de sua importância econômica para o Brasil. A partir de então, sua utilização restringiu-se a áreas mais remotas e ao transporte de cargas a partir das estações ferroviárias. Mas as profundas trilhas deixadas pelas tropas de bestas já se encontravam gravadas na formação econômica e social do Centro-Sul do país.

fonte: CARLOS EDUARDO SUPRINYAK é mestre em Economia e autor do livro Tropas em Marcha: o mercado de animais de carga no Centro-Sul do Brasil imperial (Annablume, 2008).

Saiba Mais – Bibliografia

BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. Viver e sobreviver em uma vila colonial: Sorocaba, séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume, 2001.
GOULART, José Alípio. Tropas e tropeiros na formação do Brasil. Rio de Janeiro: Conquista, 1961.
PETRONE, Maria Tereza Schorer. O Barão de Iguape, um empresário da época da independência. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1976.
WESTPHALEN, Cecília Maria. O Barão dos Campos Gerais e o comércio de tropas. Curitiba: CD Editora, 1995.

Saiba Mais – Internet

Relatórios dos presidentes das províncias do Paraná, de São Paulo e de Santa Catarina. www.crl.edu/content/provopen.htm 
 


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