Escravocratas na história de Vitória da Conquista

por Maris Stella Schiavo Novaes**


Apesar de seu pouco tempo de existência, a Catrop já contribui afirmativamente pela qualificação e valorização da história local.  De forma muito original, atuamos na prestação de serviços de pequisas, tanto de caráter particulares, quanto institucionais. 

É o caso que vamos ilustrar neste artigo. 



Em 2008, em uma visita ao Arquivo Público, nosso pesquisador Saulo Moreno Rocha, encontrou um livro de atas de 1850, oficialmente desaparecido desde 1993, data do último registro patrimonial, realizado por  levantamento feito pelo saudoso prof. Mozart Tanajura. 


O encontro desse livro foi um acontecimento de grande importância para pesquisadores  e historiadores do sertão da Ressaca. E já na época em que foi encontrado, 2008, seus dados foram sistematizados e utilizados pela profª Idelma Novais na realização de sua dissertação: Produção e Comércio na Imperial Vila da Vitória ( 1840-1888).

Na interpretação dos dados adquiridos através de Saulo, foi possível à Profª Idelma Novais,  inferir que a Imperial Vila da Vitória não chegou a ter um plantel de escravos de grande quantidade, se levarmos em conta outras regiões do país. O pouco contingente existente nessa região dá conta de uma população heterogênea oriunda de diversas regiões africanas como: Angola, Congo, Aussá, Moçambique.

Tendo como base 207 inventários, Idelma Novais elaborou uma sistematização minuciosa e observou que eram poucos os escravos pertecentes à região do Sertão da Ressaca. Por estes registros confirmaram-se que 62,5% dos inventariados eram donos de até quatro cativos, 23,3% continham de cinco a dez, 8,8% apresentava uma quantidade entre 11 a 23 escravos, sendo que 4,0% deles angariavam um número maior, entre 33 a 72 escravos.

O inventário do Capitão Luiz Fernandes de Oliveira (primeiro Intendente de Conquista) e sua mulher Thereza de Oliveira Freitas, atesta que ambos possuíram o maior número de escravos numa família conquistense, totalizando 72 pessoas assim distribuídas: 27 homens, 16 mulheres e 30 crianças, espalhados pelas 24 propriedades pertencentes ao casal. Proporcionalmente, este contingente humano representava 35,9% do valor relativo à fortuna dos mesmos.

Maria Clemência do Amor Divino e seu marido João de Oliveira Freitas, notabilizaram-se por serem o segundo casal de escravocratas, possuíram 50 escravos: 24 homens, 13 mulheres e 13 crianças, e representavam 19,7% do valor total do inventário.

Em terceiro vem o casal Lourenço Gonçalves da Costa e Ana Senhorinha de Jesus com um total de 46 escravos, sendo: 29 homens, 9 mulheres e 8 crianças; mais 5 idosos acima de 60 anos. O contingente de escravos correspondia a 38,1% da riqueza e estavam distribuídos pelas 08 fazendas do casal onde trabalhavam na produção de cana-de açúcar, algodão, cereais e mandioca.

Embora não tenha sido trabalhado pela profª Idelma Novais, Josepha Dias de Miranda e seu consorte Antônio Coelho Sam Payo possuíram 60 escravos. 

Como pesquisadora da socialidade conquistense, considero que esses dados são importantes não apenas pelo seu contexto direto a escravidão em si em termos quantitativos. A mim, são muito mais significativas as inferências decorrentes das mediações de sentido embutidas nessa formação social; especificamente no que diz respeito aos contatos e trocas humanas. 

Os dados sugerem a viabilidade da hipótese que venho trabalhando em minhas pesquisas pessoais: Vitória da Conquista se forma socialmente a partir da relação de distinção entre as pessoas, ou seja, ou seu tônus de socialidade é marcado pelo estranhamento do outro e não pela acolhida. Marcadamente a distinção de côr e a desconsideração dessas representações culturais identificam traços relevantes na constituição dessa socialidade.

Em referência ao resultado da pesquisa apresentada, em sendo um número pequeno de escravos espalhados por várias propriedades, não houve por aqui a implantação de senzalas.

As senzalas possibilitavam vivências comunais, que por conseguinte, favoreceriam à manutenção de tradições e valores culturais; isso sem esquecer do mais importante, as resistências advindas do conjunto de um grupo confinado. Mesmo em se tratando de um contingente heterogêneo e de poucos escravos, se vivendo todos juntos, achariam interesses e valores em comum, e por certo a história da escravidão em Conquista teria sido muito diferente referendando na cultura da cidade uma presença negra muito mais respeitada e acentuada. O que não acontece.

Devido à riqueza das informações encontradas por nosso pesquisador, o trabalho realizado por Saulo Moreno compreendeu parte importante na feitura da dissertação, da profª Idelma Novais cujo foco principal compreendeu as relações comerciais da região do Sertão da Ressaca. 

Mas pelas imensas possibilidades de avaliação e leituras, o material encontrado pode e deve ser melhor explorado por todos que se interessem em estudar a história de Vitória da Conquista.

Além desse acervo, a Catrop mantém uma considerável fonte em meio digital que poderá ser acessada por futuros pesquisadores da história da cidade: Fontes genealógicas, livros de inventários, processos cíveis e criminais, livros de atas e registros de diversas instituições, fotos antigas, arte cemiterial… E também jornais e fontes manuscritas.

Se precisar de nossos trabalhos, utilize nesse blog os espaços de interação disponíveis e entre em contato conosco!

**Maris Stella Schiavo Novaes é Presidente da Ong Carreiro de Tropa – Catrop, Coordenadora do Núcleo de História, Cultura e Memória da Catrop; Licenciada em História pela Uesb de Vitória da Conquista Bahia; Com pós-graduação em Educação, Cultura e Memória, pelo Museu Pedagógico/Uesb. 
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