Tropeirismo em Vitória da Conquista: a história escovada a contrapelo

por Maris Stella Schiavo Novaes e Antônio Bispo Horta**

Quem é pobre, pouco se apega, é no giro-giro nos vagos dos gerais, que nem os pássaros e rios e lagoas.   O senhor vê o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso.  pergunto: – “Zé-Zim, por que você não cria galinha de angola, como todo mundo faz?” -“Quero criar nada não”- me deu resposta: -“Eu gosto muito de mudar…”

Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas)

Trabalhar com fontes orais é muitas vezes, romper com silêncios e esquecimentos, retirando das águas do Lethes um tempo que parecia perdido para sempre em um tempo onde nada mais pode ser mudado. Lidar com narrativas de antigos tropeiros é percorrer por trilhas e caminhos demarcados em almas açoitadas pelas tempestades de um tempo em que hoje, não necessariamente se traduziu em progressos, mas,  que se consome em lembranças. 

E no caso dos velhos tropeiros, com suas memórias, o que fazer? As trilhas e viagens não existem mais, foram incorporadas ao cortejo de coisas ignoradas, ou superadas pelo progresso. Ao invés do agitado movimento de tropas e mulas, chicotes estalando e gongolos tinindo, o que restou foi um forçado silêncio, que muitas vezes é quebrado pela vontade de um coração andarilho, ainda que as pernas já não tenham mais forças para longas caminhadas. Ouço de alguns depoentes:


 –“Eu gostava mesmo daquela vida de penalidade e de troperá. Achei que num gostava. Mas, gostava sim. Agora que sei disso, o jeito é me sentá aqui pertin da porta, apurar os ouvidos pro canto de algum pássaro e me perdê olhando o vento balançá as árvores. Anssim, muitas das vezes, meu coração se assussega”.

Também eu perco-me em pensamentos, empreendo em mim muitas mudanças, porém minha “viagem” é outra, formalizada pelos ritos da academia, vejo nessas narrativas e práticas culturais, signos de uma socialidade marcada em traços coletivos, e, pergunto-me: Por que a história oficial da cidade, não considera a existência dessa atividade que perdurou por aqui por mais de um século e meio, será que representam o atraso, o que não precisa ser lembrado? Sou um amontoado de interrogações. E nessa peleja, visita-me o pensamento, o Anjo da História, o mesmo que assombrou Walter Benjamin com o seu olhar voltado para o passado:


 “Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira às costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”(BENJAMIN, 1985, p. 226)

Agora sou eu, pesquisadora habilitada que estou tropeirando, conduzida pelas asas do anjo de Benjamin, vou “reconstruindo” trilhas e restituindo significações às memórias dos tropeiros, operando mudanças de sentidos e sacudindo o pó das profundas areias do Lethes, e como um legado coletivo, considerando-as um patrimônio imaterial:  esteio para a estruturação das identidades locais que constituem para o bem e para o mal, o povo de Vitória da Conquista. O caminho a trilhar ainda é bem longo… Mas, encanta-me os desafios da estrada.


Trabalhar com essas narrativas é conhecer o olhar da saudade, é refletir sobre memórias e histórias de homens, que pelo peso da idade, já não podem mais se mudar daqui para ali, de rota em rota, de pouso em pouso… 


Contudo, se os antigos tropeiros não podem mais caminhar, também não é mais o caso de se pensar em mudar, a história da cidade lhe deve um lugar de honra. Agora é hora de restituir a eles sua importância de sujeitos-históricos, nem que para isso seja preciso “escovar a história a contrapelo” (BENJAMIN, 1994, p. 225)

**Maris Stella Schiavo Novaes é Presidente da Ong Carreiro de Tropa – Catrop, Coordenadora do Núcleo de História, Cultura e Memória da Catrop; Licenciada em História pela Uesb de Vitória da Conquista Bahia; Com pós-graduação em Educação, Cultura e Memória, pelo Museu Pedagógico/Uesb. 


**Antônio Bispo Horta (ex-tropeiro, falecido)


Referência Bibliográfica:

BENJAMIN, Walter: Sobre o Conceito de História. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Tese 15, p. 230. Doravante citado apenas como “Teses”.



_____________. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e crítica cultural. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.
ROSA, Guimarães: Grande Sertão: Veredas.


tweetmeme_source = ‘@catrop’;

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