Do Tropeiro a Benzedeira ou da Benzedeira ao Tropeiro: Paixão e Conhecimento

por Saulo Moreno Rocha**

A paixão pelo tropeirismo dá asas ao meu conhecimento. Duas palavras, paixão e conhecimento, com significados marcantes em distintos contextos, mas que fundidas revelam o meu verdadeiro sentimento pelo movimento tropeiro.

Ao chegar a ONG Carreiro de Tropa em 2007,

e ao conhecer a historiadora Maris Stella Schiavo Novaes, aproximei-me do mundo do Tropeiro, mudando de espaço e de lugar esse agente dentro de meu coração. A forma com que os olhos da apaixonada pesquisadora me fitavam ao falar sobre o seu objeto de estudo, o tropeirismo, me fez de imediato relembrar fatos, causos, rodas de conversa, velórios, a minha família, em especial, e a minha própria trajetória enquanto ser.


Nasci em Vitória da Conquista, mas vivi até os meus 13 anos num lugar chamado Lindo Horizonte, ou simplesmente Lagoa d’ Água, povoado simples, que está inserido numa zona muito árida do município de Anagé – Bahia. Desde muito novo me interessei pela história do lugar, e em extensão da minha família, que foi pioneira no povoamento daquela região e de todo o Sertão da Ressaca.

Lá, desde muito novo, me interessava em ouvir as conversas dos mais velhos, e eram tropeiros, vaqueiros, rezadeiras, benzedores, feirantes, criadores, comerciantes e muitos outros personagens que fizeram parte da minha infância. Como esquecer a imagem de Ana de Gino, que me contou sua história de vida, desde os tempos em que colhia café nas lavouras de Barra do Choça até ir morar em Lagoa d’ Água, onde era tida como louca, mas, que ao pegar num ramo de mamona para benzer, transportava para ali todos os seus conhecimentos no campo do religioso e onde mostrava que a sua fé era inabalável, e que para vencer as tentações do mundo era preciso perseverar?

Ao olhar para um tropeiro na roda me veio a lembrança terna dos tempos de minha infância em que na casa de meu pai ouvia dele, de amigos e parentes as histórias de tantas pessoas, homens, mulheres, crianças e velhos, que da memória deles não saíam e que da minha nunca sairá. Era com entusiasmo que meu pai contava as façanhas dos seus parentes no Sertão da Lage do Gavião, e às vezes, com muita emoção transmitia a nós a vida de sofrimentos por qual passou seu pai, saindo de lugar em lugar em tempos de seca a procura de farinha e outros mantimentos, e quando retornava para casa, com o embornal vazio, se sentia triste, pois a peregrinação teria que novamente começar.

Dos tempos em que meu avô tropeirava quase nada restou, quem sabe uma velha Bride ou sela e uma cobra numa garrafa na varanda da casa velha, o que ficou vivo na lembrança dos meus tios e do meu pai fora a vida sofrida, por qual passava seu pai, quando saia com a tropa, enfrentando chuva e sol, as onças e as mulas-sem-cabeça, num Sertão seco, que logo a primeira gota d’ água do céu, se enverdece todo e se mostra o lugar mais lindo de se contemplar e viver.

Todas as histórias que a mim foram transmitidas por pessoas como Seu Zé Cunha, Dona Zulmerinda, Dona Cremilda, Seu Miro, Tia Lurdinha e Seu Manoel, Seu Raimundo e Dona Ana de Porfílio, foram se aflorando na minha cabeça no momento da Roda de Conversa sobre Tropeirismo, pessoas que por mais sofrimentos que tenham vivenciado, ao contarem as suas histórias, se sentem felizes, por terem vencido.

Esse pequeno texto dedico ao meu avô José Almeida Filho, ou simplesmente Zé Almeida, que mesmo não o conhecendo, foi para mim exemplo de honradez e firmeza, tropeiro forte, sertanejo filho de Boiadeiro. Ainda dedico a Dona Ana de Gino, que com as folhas de mamona me rezou aos sete anos, e ao mesmo tempo em que benzia transmitia a mim a sua história, o seu legado, as suas vivências que só hoje posso reconhecer e valorizar.
**Saulo Moreno Rocha é pesquisador do Núcleo de História,Cultura e Memória da CATROP. Estudante do Curso Integrado em Meio Ambiente do Instituto Federal da Bahia – Campus Vitória da Conquista e Presidente do Grêmio Estudantil da mesma Instituição. Integra as atividades realizadas pelo projeto “Jovem PEV”, executado pela ONG PEV – Programa de Educação para a Vida.
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