Zé Mosquito: "As bruaca carregava bem mais coisa do que a gente botava nelas. Hoje eu sei"


por Maris Stella Schiavo Novaes**

Eu, registrando os relatos de memória do tropeiro
Zé Mosquito
Entre os meses de abril e maio de 2010, foi realizada uma série de entrevistas com o Sr. José Batista da Rocha, antigo tropeiro, residente na Fazenda Mata Verde, zona rural de Vitória da Conquista. 

Na ocasião, buscávamos informações sobre aspectos socioculturais do tropeirismo em nossa região, queríamos saber de festas, músicas e danças, no entanto, quem generosamente aceita contar suas memórias, direciona suas falas, e a nós, cabe exercitar a paciência e o respeito em manipular com sentidos tão delicados quanto importantes.


Não encontramos as informações que queríamos, mas, obtivemos variados relatos, onde Zé Batista narra sua infância vivida no trato diário do trabalho tropeiro. É recorrente a referência ao seu pai e à figura de seu padrinho o também tropeiro Manoel Bonfim, a quem ele insiste em nos apresentar, pois, o mesmo  reside próximo à sua fazenda. Convite a que atendemos com muito gosto.

José Batista da Rocha
José Batista nasce em 1944, numa típica família sertaneja, numerosa e sobrevivente das adversidades. Filho e neto de tropeiros, seus antepassados viveram e morreram na mesma região onde se localiza sua pequena propriedade. 

Seu pai, Emídio Batista da Rocha, era arrieiro, ou seja, chefe de uma tropa pertencente ao  fazendeiro de nome Prácides.  Nessa época residiam na fazenda desse patrão, localizada em São Paulino (hoje Caatiba). Por volta de 1954, Emídio consegue montar um lote de 12 animais, passando a trabalhar por conta própria. Tropa montada, chama seu primogênito, na época com 10 anos, para as tropagens. A família retorna à Conquista, voltando a morar em terras herdadas de antepassados.

O menino-tropeiro e malino, logo ganha o apelido que ainda hoje o identifica muito bem: Zé Mosquito. Em consequência da impaciência dos mais velhos com as inquietações próprias da infância, cunharam em sua alma a marca de sua personalidade inquieta. 

Hoje, ele nos conta sorridente e saudoso de que foi um menino “danado e arteiro”, cuja infância vivida no trabalho não esgotava suas possibilidades de sonhos e brincadeiras.  

” minino é minino de quarquer jeito. 
Na mininice a gente sempre arranja jeito pra divertimento. 
Bobagi pensá diferente.
O trabaio era muitio, mas eu  nunca que  deixei
de ri, de subí nas árvi que quis,
de pegá imbu  ou caçá nos mato. 
Eu tinha um cachorro que andava mais nóis. 
E que minino num se diverti com um cachorro pro perto?
Eu num me divirtia o tempo todo e nem
trabaiava o dia todo. Sabendo vivê
tem tempo pra todas as coisa. 
As bruaca carregava bem mais coisa do que
a gente botava nelas.
Hoje eu sei

Zé Mosquito posando
uma lembrança das
caçadas de infância
A tropa comandada por seu pai, fazia mais constantemente a rota de interligação entre Vitória da Conquista- Poções- Planalto- São Paulino (Caatiba) – Acaraí- Itapetinga, transportando mercadorias fretadas sob encomenda, ou de sua própria produção. 

Durante 08 anos de 1954 a 1962, essa era a sua realidade. Ao completar 18 anos casa-se com Anália de Jesus Oliveira e o livro de sua vida se abre para novas histórias que se quiserem depois eu conto.
Maris Stella Schiavo Novaes é Presidente da Ong Carreiro de Tropa – Catrop, Coordenadora do Núcleo de História, Cultura e Memória da Catrop; Membro da Rede de Estudos da Complexidade – Recom/UESB, Colunista do site: http://www.acontecebahia.com.br/; Secretaria da Mulher do Partido Socialista Brasileiro – PSBLicenciada em História pela Uesb de Vitória da Conquista Bahia; Com pós-graduação em Educação, Cultura e Memória, pelo Museu Pedagógico/Uesb. 

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