As janelas insistem em se movimentar

Por Saulo Moreno Rocha**

Conquista, meados do século XX, os boiadeiros conduziam as boiadas, que eram conduzidas para diferentes localidades, quando na rua que possuia uma toponímia ligada ao boi, uma casa se erguia, austera, retrato do estilo arquitetônico de seu tempo. A rua era da boiada, porém, quase um século depois, a casa do Prof. e Profa. Hoffman está sendo demolida, a cada minuto, um tijolo cai, um sonho que começou a ser construído a mais de um século se ver destruído, sendo estraçalhado, a rua agora é João Pessoa, a casa daqui há alguns dias não estará mais lá, testemunha fiel do crescimento de nossa cidade.

Vitória da Conquista, que se orgulha de ser a terceira maior cidade do Estado da Bahia e capital do sudoeste não possui uma casa sequer tombada por órgãos federais. A casa de Dona Zaza, tombada pelo Governo do Estado da Bahia é a única que está resguardada do monstro que assusta essa cidade, que destrói a memória, que quer liquidar os poucos registros que possuímos de nossa tão rica história.
O casarão dos Hoffman, que vieram para Conquista com o objetivo de lecionarem no Ginásio do Padre Luiz Soares Palmeira, o “Ginásio de Conquista”, um dos poucos exemplares das construções da Conquista antiga, está ruindo, e com ela a memória, a história de uma cidade que não valoriza e nem preserva o seu patrimônio, bem maior que possa ter um povo. O monstro do apagamento da memória ataca a cada dia, nossos casarões, nossos acervos, arquivos e bens culturais, esperando uma oportunidade, para mais uma vez nos roubar, nos deixando órfãos de memória e de história, chegando com suas máquinas a derrubarem, a liquidarem os nossos registros, os nossos rastros.

As janelas do antigo casarão ainda temam em movimentar, num vai e vem calmo, anunciando que a qualquer momento nem elas estarão mais ali, tudo estará sendo engolido pelo monstro que pertuba nossa cidade de Conquista, porém, não nos calemos, o nosso povo precisa reagir, um povo sem história não é povo, e que registros teremos no futuro para mostrarmos aos nossos descendentes? Vitória da Conquista precisa reagir, porque mesmo que as janelas silenciem-se, o povo nunca poderá se calar perante a sua própria destruição.

**Saulo Moreno Rocha é estudante do curso técnico integrado em meio ambiente do Instituto Federal da Bahia – Campus Vitória da Conquista, presidente do Grêmio Estudantil da mesma Instituição. É pesquisador do Núcleo de História, Cultura e Memória da ONG Carreiro de Tropa – Catrop.

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2 comentários sobre “As janelas insistem em se movimentar

  1. Saulo, muito oportuna sua reflexão, porém, estas janelas não se movimentam mais, foi totalmente destruído o velho sobrado para a construção de um prédio.

    Infelizmente, é nossa rotina, a arquitetura antiga da cidade vai sendo demolida, sem que nada seja feito pelos poderes públicos que possam inibir essa prática. Falta-nos dirigentes comprometidos com a preservação patrimonial e a memória da cidade, importantes registros históricos de antigos conquistenses.

    Parabéns pelo registro. Oxalá outros jovens pudessem olhar a história com este mesmo apego e interesse.

    Maris Stella

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