Existe Política Cultural em Vitória da Conquista?

 por Manno di Sousa**

A Catrop abriu um tópico na sua comunidade perguntando: Existe política Cultural em Vitória da Conquista? E iniciou o seu argumento citando o antropólogo  Canclini. Outro participante chamado Zé de Xanda começou seu argumento citadando a filósofa Marilena Chaui, e aproveitando o ensejo eu continuarei citando a Marilena Chauí para ampliar o pensamento da Catrop e provoca uma reflexão quem estiver lendo este artigo:

…………….Vindo do verbo latino colere, na origem cultura significa o cultivo, o cuidado. Inicialmente, era o cultivo e o cuidado da terra, donde agricultura; com as crianças; donde puericultura; e com os deuses e o sagrado, donde culto. Como cultivo, a cultura era concebida como uma AÇÃO que conduz à plena realização das potencialidades de alguma coisa ou de alguém; era fazer brotar, frutificar, florescer e cobrir de benefícios.

           “No correr da história do Ocidente, esse sentido foi se perdendo até que, no século XVIII, com a Filosofia da Ilustração, a palavra cultura ressurge, mas como sinônimo de um outro conceito, tornar-se o mesmo que civilização. Sabemos que civilização deriva da idéia de VIDA CIVIL, portanto, de vida política e de regime político. Com o Iluminismo, a cultura é o padrão ou o critério que mede o grau de civilização de uma sociedade. Assim, a cultura passa a ser encarada como um conjunto de práticas (artes, ciências, técnicas, filosofia, os ofícios) que permite avaliar e hierarquizar o valor dos regimes políticos, segundo um critérios de evolução. Conceito de cultura introduz-se a idéia de tempo, mas de um tempo muito preciso, isto é, contínuo, linear e evolutivo, de tal modo  que , pouco a pouco, cultura torna-se sinônimo de progresso. Avalia-se o progresso de uma civilização pela sua cultura e avalia-se a cultura pelo progresso que a uma civilização”. (Cultura e Democracia, Marilena Chauí. Coleção Cultura é o quê – Salvador 2007 – Cap. I pag. 20-21


            Dentro deste contexto podemos dizer que a cultura da civilização brasileira nestes 500 anos de existência é contínua, na agricultura com os seus festivais do milho, do arroz, do vinho, etc.; com as crianças com suas datas e as várias políticas direcionadas a elas; e na religião com suas datas, procissões e festividades em homenagens a este ou aquele santo, e longos cultos para as suas divindades. Todas estas ações estão ligadas a todas as artes. Entretanto, o que se questiona aqui é se a política cultural de Vitória da Conquista existe, essa é a provocação para questionarmos esse viés. Não é verdade?
Pois bem, dentro do que é apresentado sobre cultura Conquista tem sim. Se ela é contínua, dentro do critério evolução, ou não esse é que é o X da questão. O que entendemos por continuidade? Será que é termos o São João, o Natal da Cidade, A Música na Praça, o Por Isso Que Eu Canto, o Festival de Forró do Periperi, estas ações culturais que todo ano tem, ou tudo isso e mais outras coisas devam ser ações acontecendo cotidianamente? O que mede a cultura de uma civilização, de uma região, de um município ou de uma cidade senão pelo progresso de sua cultura

Sendo assim Vitória da Conquista tem sim e assim afirma o Marco quando diz que: “Conquista possui diversos focos culturais, desde os mais visíveis, como as manifestações religiosas e a música, até outro mais apagados, como os ternos de reis e o artesanato.É da interação entre esses nichos que se ‘povoa’ o universo cultural da cidade”.
O que ocorre é que estas manifestações não acontecem como um conjunto de práticas com deseja o Vitor quando diz que “infelizmente eu não acredito em política cultural, sem que essa seja efetivamente marcante e determinante nas nossas vidas”, pois não se tem a aí nem a ciência nem a filosofia. Contudo, as artes, as técnicas e ofícios estão inseridos neste contexto cultural quando a política cultural no Natal da Cidade incentiva a feitura de presépios onde envolver artesões e artistas plásticos, marceneiros, carpinteiros um gama de outros profissionais; quando incentiva os músicos a elaborarem com profissionalismo seus projetos e aprimorarem os seus espetáculos musicais abrangendo todas as linguagens musicais. No São João quando incentiva a criação, execução e pesquisas para o Arraial do Periperi e provocando os compositores a adentrar no universo das suas raízes com o Festival do forró e a toda população no quesito criatividade quando a convoca para enfeitar suas ruas, seus bairros, suas casas num grande concurso comunitário há décadas.

Apesar disso tudo a Luisa “não vê continuidade”, pois para ela ter todo anos tais ações não representa uma continuidade. Do outro lado a Maristela concorda com a Luisa quando diz: Não vejo alternativa positiva sem a construção de um planejamento cultural para a cidade que leve em conta todo o sistema integrado à política governamental do município”.
Por outro lado o Saulo apresenta uma sugestão que pode ser acatado por todos quando diz: “O importante é que existem pessoas que lutam, que resistem e levam a frente seus projetos, alguns sem apoio, outros com algum apoio, outros que fazem da sua ação social e cultural a sua própria vida, isso que interessa”.

Essa é realmente uma boa sacada, pois ainda estamos vivendo o tempo do Estado paternalista onde todas as ações culturais obrigatoriamente devam vir do Pode Público. Nós podemos e devemos nos movimentar para criarmos nossos próprio mecanismo de sustentabilidade de ações culturais contínuas sem necessariamente termos que viver mendigando tais ações só e unicamente provindas do Poder Público, visto que, esse é o pensamento do Geslaney quando diz que As dificuldades partem dos mecanismos e das engrenagens do Estado  – este, não tem ainda uma contemplação do que se produz de cultura, tanto nos aspectos antropológicos como no que tange às produções atuais. 

É bem verdade o que ele diz, pois o Estado com as suas políticas burocráticas, com os seus editais cheios de linguagens técnicas não olha os artistas que não sabem como por no papel tal linguagem e só os mais cultos se sobressaem, e outros, embora conhecedores de tais linguagem não têm paciência de participarem deste editais burocráticos.

Voltando o plano Municipal vale perguntar: será que Conquista responde a tais questionamentos ou as críticas direcionadas a ela procede? Em parte sim, em parte não. Para isso utilizo aqui mais uma assertiva de Geslaney, ele diz: “Há um modelo de “consumo” de arte que ainda é comandado por uma engrenagem, que alguns pensadores e artistas vêm denunciando desde antes de Antônio Conselheiro – uma forma de Estado, que pretendia dialogar com a cultura dominante (Religião) e um Estado organizado sob a égide da responsabilidade de todos (Estado democrático)”.  

É justamente esse “modelo” que os municípios também adotaram para as suas práticas nas ações culturais sem distinção para as múltiplas linguagens artísticas nem para os costumes regionais muito embora percebamos, mesmo que acanhadamente, esta política vem mudando através dos agentes multiplicadores e da classe artística musical e teatral. Estes têm pressionado o Pode Público na continuidade e sustentabilidade das ações culturais que abranja todo o município e contemplem, realmente, a todos os artistas nas suas diversas linguagens.

            Na minha opinião Vitória da Conquista tem uma política cultural, mas que não é contínua, não tem durante todo ano, mês a mês em ações culturais. Não se sabe se por deficiência orçamentária, se por falta de empenho dos setores responsáveis ou se os artistas não têm consciência política para cobrarem e participarem das ações propostas e promovidas pelo Poder Público. Este último item é bem claro. Estamos prestes a ter um grande centro cultural na cidade que uma iniciativa do Banco do Nordeste do Brasil em parceria com a prefeitura e no 001/02/11 houve o 2º Seminário para apresentação do projeto e do como será funcionamento do Centro Cultural BNB de Vitória da Conquista. Por uma questão de consciência política deveria estar presente todas as classes artista da cidade, mas não foi isso que aconteceu

Dentro do Progresso Cultural temos vários grupos que não apenas discute, mas que movimenta ações dando continuidade a algo que sirva como ponto de referência da cidade para que se tenha vida com qualidade e atraia mais progresso e diversidade cultural.

Dentro desse contexto tem-se durante o ano inteiro vários eventos culturais de iniciativa pessoal ou de grupos privados. E caso dos grupos de rock que tem feito shows periódicos para mostrar o comportamento, não de rebeldes, mas como um modo de vida perante a sociedade, é uma cultura progressiva. O Movimento do Samba pulsante e crescente que junta jovens percussionista, bandeiristas e instrumentistas, compositores de todos os da cidade e da região acontecendo nos quatros cantos e nas ruas da cidade, é uma cultura progressista. Festival de Inverno de iniciativa privada que movimenta não só a cidade, mas a região, o Festival de Música da Bahia promovido pela FMB interagindo e integrando culturas de músicos e compositores local, regional e nacional. É uma cultura contínua e progressista

Temos ao movimento das Redes. A Rede Motiva que como objetivo dá sustentabilidade a rede produtiva é mantida por um grupo de artista e produtores nucleo VT, criou o festival Avuador para Vitória da Conquista tendo sua primeira edição em julho/2010 que promove, destaca e divulga o trabalho de bandas e cantores/compositores alternativos de toda região do sudoeste baiano. Os movimentos do coletivo Fora do Eixo em parceria com espaço cultural Viela promovem shows de bandas e artistas que literalmente estão “fora do eixo” de diversas linguagens interagindo artistas de Vitória da Conquista com artistas de outros municípios baianos, goianos e mineiros, num grande movimente da música rural. É cultura que começa no virtual e continua no real.

Pela Prefeitura via sua Secretaria de Cultura, além das ações conhecidas como o São João do Periperi e o Natal da Cidade, ações de grande relevância, recentemente surgiu mais uma ação, o Movimento do Fechando o Beco que envolve artes em várias linguagens todos no mesmo espaço todas se entendendo e compartilhando prazer e sucesso. Lá se encontra a florista/paisagista expondo suas plantas e flores exóticas, livros, discos, o pintor com seus quadros, artesanato de artistas alternativos de toda região, além de comidas típicas e bebidas, é claro e o samba como atrativo. Temos o movimento do Hip Hop, do Rap e em breve movimento Clube do Caiubi que tem como objetivo divulgar o trabalho dos compositores e poetas da cidade.
Na cultura religiosa do início ao fim do ano tem várias comerações festivas culturais em todo município e, especialmente na cidade de Vitória da Conquista, acontecem os novenários, datas santificadas aos santos católicos com suas procissões e longos cultos para as suas divindades. Nisso abrange o reizado, o pastoril e todo universo lúdico do folclore.

O Espiritismo mantém a cultura religiosa com a sua Semana Espírita que num conjunto de prática traz a filosofia.

Nessa visão do apresentado e no conceito do Canclini e da Marilena como não afirmar que Vitória da Conquista não apresenta um universo de política cultural seja ela do setor privado ou do setor público? Assim desse modo todas as práticas das artes, ciências, técnicas, filosofia, os ofícios, acontecem na política Cultural de Vitória Conquista

**Manno di Sousamúsico e musicólogo, cantor e compositor, membro da Catrop
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