História local de Vitória da Conquista publicada na internet

Histórias e Vidas

Ele ainda se recorda quando o lado Oeste de Conquista era formado somente por mato e ainda era possível caçar passarinhos, se lembra da feira com suas barracas de pau cobertas por panos amarelados, dos pinheiros que preenchiam a antiga Rua da Várzea, dos pés de jenipapos e cajá da atual Praça Vitor Brito e dos bons tempos vividos no bar Gato Preto. Otaviano dos Santos, marceneiro de 86 anos, não conseguiu esquecer a velha Conquista. “Aqui construí minha família. Cheguei pra ficar 60 dias e já estou há 68 anos”, conclui.

São pessoas como seu Otaviano dos Santos e tantas outras desconhecidas que construíram a história de Vitória da Conquista. História que nem sempre foi romântica e idealizada como conta a marcha heróica dos bravos bandeirantes.

Segunda maior cidade do Interior da Bahia, Vitória da Conquista surge da necessidade de Portugal em criar um povoado entre a região Litorânea e o interior do sertão e, principalmente, pela ânsia do ouro. “Na verdade os bandeirantes vieram pra Conquista porque já sabiam da existência de um ouro na passagem entre Poções e Boa Nova. Quem trouxe esse ouro foi o doutor André da Rocha Pinto, de Caitité”, afirma o historiador Melquisedeque do Nascimento. “Dr. André da Rocha Pinto encontrou o tal ouro nas minas de prata de Robério Dias: a mina de Boquira. Ele renegava o quinto do ouro, que cabia ao império. Para esconder isso, Dr. André mandou incendiar o cartório de Caetité no ano de 1850. Mesmo assim o imperador ficou sabendo dessas falcatruas e mandou buscar a cabeça dele a qualquer preço. Então, ele foge de Caetité pra Conquista, e por aqui deixa o ouro”.

Em meio a mata Atlântica, território dos índios Imborés e Mongóios, o bandeirante João da Silva Guimarães, o mestre de Campo João Gonçalves da Costa e mais 120 homens, enfrentaram a forte resistência dos legítimos donos da terra. No embate com os índios, conta a história que até às 6 horas da manhã os bandeirantes ainda não haviam vencido a batalha. A solução foi trágica, mas eficaz: “Os bandeirantes armaram um banquete na atual praça Tancredo Neves, envenenaram a comida e a cachaça, ofereceram aos índios e depois os mataram”, afirma Melquisedeque. Contra arcos e flechas, permaneceu o poder das armas de fogo. Várias tribos foram dizimadas.

Após a batalha dos bandeirantes e índios, em 1752, foi fundado o Arraial da Conquista. 28 anos depois, o Arraial tinha uma população de pouco mais de 60 pessoas. Em 1816 erguiam-se 40 casas e uma igreja em construção: a Igreja matriz de Nossa Senhora das Vitórias, que faz parte da memória e vida de Conquista. “Todo domingo de manhã, das 9 às 10 horas, eu e minha mãe íamos pra missa, pra comunhão. Eu me lembro do corinho que dizia assim: Ave Maria, vestida de branco ela apareceu, trazendo no cinto as cores do céu. Ave ave ave Maria”, diz Dinalva Miranda, 62 anos. “Sinto saudade mesmo é da quermesse. Dona Ianê e Albertina organizavam uma festa muito bonita. Os doces eram bem chiques, feito pelas mulheres ricas da época. 

As meninas se arrumavam todas. Os rostos eram maquiados com pó de arroz e rouge. Depois, passavam o perfume Itamaraty, Revedô ou Tabu. O vestido era geralmente de lonita, bem rodado e acinturado, na altura da canela, enfeitado com bicos e arremate com florzinhas de organdi. Os cabelos, penteados com a brilhantinaGlostora ou Suspiro de Granada, ora eram presos com fita, ora com uma passadeira. Os sapatinhos eram pretos envernizados. Ah… a quermesse era uma festa só. E os programas de calouros… Eu era uma das calouras (risos…). Cantei muito as músicas Orgulho, de Ângela Maria, e Índia, de Cascatinha e Inhana”, conclui Dinalva.


Na época do Arraial da Vitória a pecuária e agricultura de subsistência mantinham o povoado e fixou a pequena população. Em 1808 o gado tornou-se comercial e marcou a civilização do couro. O bovino, que existiu em Conquista durante fase áurea da pecuária, ficou conhecido em todo sertão baiano como peduro. A raça zebu trazida pelo fazendeiro Marcelino Gusmão, os gados crioulo mestiço também caracterizaram a região. A carne do boi socada no pilão, com um pouco de farinha, formava a paçoca que alimentou os habitantes. A pecuária impulsionou Conquista ao crescimento.

A economia de Conquista sempre foi marcada pela complexidade, como relata o historiador e professor Ruy Medeiros: “Conquista sempre distribuiu uma série de produtos aos municípios que gravitam em torno dela. Como ainda é hoje”.

“No início Conquista era muito pequena; uma casa comercial vendia todos os produtos. Vendia desde ferradura e querosene até fechadura e tecidos. Tinha também as casas de sapatos que além de sapatos vendiam chapéus. A cidade tinha umas casas de destaque e comércio maior, como por exemplo, a Loja Celino, de tecidos e a Atlântida, no ramo de eletrodomésticos”, afirma Ronaldo Guimarães, 67.

Em 1840, o Arraial foi elevado a condição de Vila, passando a se chamar Imperial Vila da Vitória. A partir de então, as estradas e as condições precárias das ruas passaram a ser uma preocupação do poder municipal. Uma espécie de projeto urbano passou a ser traçado.

A produção de algodão, açúcar, café e derivados da pecuária intensificou o movimento dos tropeiros (comerciantes da época que também exerciam a função de carteiros). Na Vila existiam também algumas “vendas” a beira dos caminhos, que faziam negócios com viajantes. As lojas eram em suas próprias residências.

No dia 9 de novembro de 1840 aconteceu a posse da primeira Câmara Municipal, marcando a autonomia política e o “aniversário” de Vitória da Conquista.

Após a proclamação da República, em 1889, a Vila tornou-se cidade, conhecida como cidade de Conquista. Só em 1943 pela lei de nº 141 o nome foi modificado para Vitória da Conquista. A cidade que cresceu acompanhando o caminho do Rio Verruga e em torno da serra do Periperi, em 1945 foi ameaçada de mudar o nome para Saracota ou Conquistânia. Mas o apelo do historiador Bruno Bacelar de Oliveira, para o então prefeito Gerson Sales fez com que o nome permanecesse.

Ligado aos princípios cristãos o nome Vitória da Conquista surgiu da vitória e da conquista obtida pelos portugueses contra os índios, com a intercessão de Nossa Senhora da Vitória, invocada em um dos momentos cruciais da luta. A igreja, erguida em 1808, foi fruto do pagamento da promessa feita pelos portugueses. 

Por volta de 1912, a cidade foi atacada no mês de novembro pela gripe espanhola. O pânico tomou conta da cidade. Em 1919, a epidemia de varíola trouxe ao município o médico Luís Regis Pacheco Pereira. A peste bubônica foi o motivo do medo e da preocupação entre as famílias nos anos seguintes.

Quando foi aberta uma estrada que ligava Conquista a Jequié, em 1926, surgiram os primeiros e grandes negociantes da localidade. A loja Florence de José Joaquim Florence, a loja Viana do Coronel Paulino Viana, junto com outras, formaram um comércio bem desenvolvido e com expressão regional.

Com o núcleo urbano em crescimento, a expansão econômica no município é acelerada a partir da década de 1940 com a abertura da BR 116 e da rodovia Rio Bahia. “Conquista, até 1945, quando terminou a II Guerra Mundial, era uma cidade pequena, isolada. Só começou a ganhar destaque a partir de 1945, com o trabalho do partido de Getúlio Vargas para a implantação da Rio Bahia”, afirma Humberto Flores, comerciante e historiador. “A partir de 1941 os EUA deixavam de fabricar automóveis para exportação, fazendo somente para o consumo interno, pois toda força industrial americana estava concentrada para na Segunda Guerra. Então as viagens aqui do Brasil, e é claro, de Conquista, eram feitas nos lombos dos burros, dos bois, em carroças e pequenas carruagens. Eu mesmo, quando menino viajando com o meu pai para fazenda, nos anos 40, a cavalo, daqui pra Itapetinga, parava no meio da viagem pra dormir. Me lembro bem de que nas hospedarias a dormida era no couro de boi”, relata Humberto.

Nas décadas de 50 e 60, já com a Rio Bahia, Conquista cresce como pólo industrial do interior. A redistribuição de bens de consumo para regiões como o extremo sul da Bahia e o norte de Minas intensificaram o comércio. “Foi uma época marcada pela migração. Um grande movimento dos nordestinos para a região sudeste. Ao passar em cidades como Feira de Santana e Conquista, muitos imigrantes se fixaram e montaram pequenos comércios”, afirma Ruy Medeiros. “Ao enxergar Conquista do alto, quando entravam no município, muitos viam uma estrutura pequena, mas com grande capacidade e área geográfica para crescer. Conquista era chamada de Cidade do Céu Grande, porque se olharmos do alto veremos as possibilidades amplas de loteamento”, acrescenta Humberto Flores.

Com a implantação da cafeicultura em 1971, a cidade consolida o seu desenvolvimento. Por toda década de 70, Conquista se destaca como pólo cafeeiro. O produto chegou a ser a principal fonte econômica e social da região. Na década seguinte, a queda dos preços e as dívidas dos cafeicultores fizeram com que a produção caísse. Dona Maria Fernandes, bisneta do coronel Gugé, se recorda da fazenda do seu marido. “Ele conseguiu um empréstimo do Governo Federal, na década de 70, comprou uma fazenda e começou a cultivar café, mas depois ele ficou doente, foi perdendo a visão por causa da sua diabete a vendeu”. O marido de Dona Maria, não sobreviveu para presenciar o declínio do café em Conquista, na década de 80.

Segundo pesquisas realizadas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), o pólo cafeeiro de Conquista, chegou a registrar uma safra de 750 mil sacas e a participar com 70% da produção na economia do Estado nos anos de 1985 e 1986. Em 1990 teve uma safra de 300 mil sacas. Uma queda de 60% na produção. O café teve uma importância muito grande, um impacto enorme no desenvolvimento urbano, diz Ruy Medeiros. A saída foi a diversificação da lavoura com feijão, milho, mamona e com desenvolvimento da apicultura.

O Distrito Industrial dos Imborés, implantando em 1972, próximo a Serra do Periperi foi um grande passo na época. Conquista apesar de ser o terceiro pólo industrial da Bahia, possui uma industria muito fraca, conclui Ruy. Entre os anos de 1983 e 1989, o prefeito José Pedral Sampaio, no local espaçoso e arejado, construiu o Ceasa. Essa feira é considerada a segunda maior do Estado. Comercializa uma grande variedade de gêneros alimentícios e afrodisíacos, utilizados pelos curandeiros como remédio para aqueles que não podem comprar os que são receitados pelos médicos. Procurado por pessoas mais idosas, que acreditam fielmente que essas raízes têm o poder de curar, seu Antônio vai distribuindo os seus remédios naturais como Baba de Timão, Caatinga de Porco, Pra tudo, Catuaba e entre outros, o Pau de Resposta, indicado para a impotência sexual. Uma farmácia, construída com os conhecimentos do avó, que passou para o pai e que passou para o filho, um local onde se encontra uma raiz para cada tipo de doença. Comerciante de raízes há treze anos na feira do CEASA, seu Antônio afirma que não dá pra ganhar muito com esse comércio, “mas o pouco que ganha dá pra tocar o barco”, diz ele.

A guerra pelo poder

Por volta de 1912, o Coronel Gugé, era o Intendente da cidade de Conquista. Liderando a oposição, estava o coronel Maneca Moreira, sobrinho da esposa do Coronel Gugé.

Filiados ao Partido Democrático da Bahia, as brigas entre eles se acirraram, após a divisão do partido em Conquista. O grupo do Coronel Maneca Moreira, que tinha aderido a J.J. Seabra (então governador da Bahia), passou a criticar os desmandos administrativos da situação. Enquanto isso o grupo liderado pelo Coronel Gugé que tinha se ligado ao chefe de polícia da capital, se defendia das acusações.

No auge da disputa, os dois grupos passaram a ser conhecidos como Meletes (a oposição, liderada pelo Coronel Maneca Moreira) e Peduros (a situação, liderada pelo Coronel Gugé). Entre os anos de 1916 e 1919, os desentendimentos se acentuam com a participação na briga dos jornais “A Palavra”, apoiando os Peduros e “A Conquista”, ligada aos Meletes.

O conflito piora em Agosto de 1918, com a morte do Coronel Gugé. Até então, os grupos tinham evitado o confronto direto, respeitando a relação de parentesco entre os líderes. A passividade da Justiça, representada pelo Juiz de Direito da Comarca, Antônio José de Araújo, favorecia os Meletes.

Ainda em 1918, o coronel Maneca Moreira, pede aos Meletes para que eles não paguem os impostos devidos ao município. Grande parte da população obedeceu. Os Peduros respondem com um artigo, no jornal “A Palavra”, feito por Manoel Fernandes de Oliveira (o Maneca Grosso), repudiando o tal pedido. Em retaliação, no dia 5 de Janeiro de 1919, Maneca Grosso sofre, com o seu compadre Cirilo, um atentado; morrendo logo em seguida, por não resistir aos ferimentos.

A emboscada acelerou o conflito. Prevendo o combate, a ajuda da polícia foi solicitada pelo Intendente Leôncio Sátiro. Mas a situação não foi resolvida. Os soldados passaram a promover arruaças,e outros voltaram a Salvador com medo dos Meletes. O Intendente Leôncio renuncia ao cargo. Assumindo o coronel Ascendino dos Santos Mel, que era ligado aos peduros.

Os dois grupos tiveram um embate. Os Peduros exigiram que o juiz “saísse de Conquista montado num boi”. O tiroteio começou na manhã do dia 19 de Janeiro de 1919, na Rua Grande, só tendo fim com a chegada de um grupo de senhoras: Laudicéia Gusmão, Henriqueta Prates e Fulô Rocha. Várias pessoas morreram.

Sob a liderança do Coronel Ascendino Melo têm início às negociações. No dia 21 de Janeiro de 1919, é assinado um acordo de paz entre os grupos. O Coronel Maneca Moreira entrega as armas e se muda com a família para Poções (onde será prefeito duas vezes).Dino Correia assume de uma vez a Intendência de Conquista. E o juiz, Dr. Antônio José de Araújo vai para Salvador.

Histórias como essas e tantas outras desconhecidas, contribuíram para a formação da atual Vitória da Conquista. Mas, como ressalva Humberto Flores, não são apenas 164 anos de Conquista, pois antes da emancipação ela já existia. Conquista nasceu em 1783 e não em 1840, portanto são 221 anos de histórias, 221 anos de lutas, 221 anos de vidas.

Anúncios

7 comentários sobre “História local de Vitória da Conquista publicada na internet

  1. Amei passar por estas histórias da minha amada Terra Natal, Vitória da Conquista.
    Ainda mais através de depoimentos e memórias de pessoas que ainda estão por aqui, como Sr Humberto Flores.
    Espero que continuem obtendo memórias de outras pessoas pois, contribuem para enriquecer a história do nosso Rincão.

    Curtir

  2. E, de preferência publiquem mais fotos antigas. Fico imaginando como era a vida de meus antepassados àquela época aqui em minha amada Vitória da Conquista, onde nasci, me criei e pretendo morrer.

    Curtir

  3. Cada vez que ando pelas ruas de Conquista e vejo os velhos casarões sendo demolidos para serem erguidos prédios comerciais ou, construídos estacionamentos, fico com o coração partido, me perguntando: Onde está o poder público que fecha os olhos para nosso patrimônio histórico?
    No nosso centro já quase não existe mais nada que perpetue a nossa memória histórica.
    É uma pena…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s