O dia em que o tempo parou

A reunião de velhos tropeiros em Ronco dÁgua traz à lembrança um Brasil que cresceu sobre cascos de mula 


Texto Suely Gonçalves
Fotos Ernesto de Souza 


João, Josias, Joaquim e Mestre Ditinho: reunião de memórias

                                                 Cincerro, o sino que vai no pescoço da madrinha, a mula que segue à frente da tropa


Às 6 horas da manhã, sentado na soleira da porta de sua casinha no bairro do Bom Jesus, município de Silveiras (SP), Benedito Henrique de Paula não chegou a ouvir no último 31 de agosto o toque da alvorada que anunciava o Dia Nacional do Tropeiro. Nem ele nem Joaquim Governo, companheiro fiel de longas jornadas. Os dois tinham outro plano para esse dia: visitar os irmãos João e Josias Mendes. Seria esse, depois de muitos anos, um reencontro de velhos tropeiros.


No caminho do Ronco d’Água, onde os irmãos vivem em sossego garantidos por um gadinho de leite e uns palmos de lavoura, as lembranças brotavam da mata fechada. Não ficava ali o mangueirão que tantas vezes serviu de pouso para a tropa? Como os 85 anos de vida não chegaram a bulir em sua memória, Ditinho vez por outra ia corrigindo Joaquim. É verdade que o asfalto cobriu as trilhas e o ronco dos motores espantou pra longe os coleirinhos-do-brejo e os tico-ticos, mas ficava ali, sim, depois da curva fechada, a entrada do grotão que levava à Serra da Bocaina, por onde as tropas subiam e desciam carregadas de tudo: café, milho, feijão, tijolo, pisando o mesmo caminho por onde, durante dois séculos, mulas carregadas com o ouro das Minas Gerais seguiam em direção ao porto de Parati. 

Mais duas léguas de lembranças e chega-se à casinha de João escondida na neblina. A surpresa faz o tropeiro abandonar a gaiola do azulão e com respeito de aprendiz tirar o chapéu para o velho mestre: ‘Josias de Deus, vem ver quem chegou’. Pronto. Diante do fogão de lenha e do bule de café quente e forte a prosa corre solta como se o tempo tivesse parado. Volta e meia a valentia de Ditinho aparece permeando os ‘causos’. Domador de burro bravo e tropeiro desde os 7 anos, ele ensinou o ofício a todos.

Aprender até foi fácil. Difícil era sossegar em casa, ver os filhos crescerem. A fartura brotava nas terras de João Romão, poderoso senhor de oito fazendas espalhadas por vales e grotões e cuja produção movimentava imensas tropas meses a fio.
A festa do Dia Nacional do Tropeiro, em Silveiras, criada pelos quatro companheiros há 30 anos: estridência de 70 mil visitantes a torna irreconhecível para os velhos tropeiros

Os ecos da festa do Dia Nacional do Tropeiro não chegam ao Ronco d’Água. E mesmo que chegassem não seriam capazes de animar os quatro companheiros. Em meio à estridência dos quase 70 mil visitantes que invadem Silveiras nessa data, eles não reconhecem mais a festa que inventaram há quase 30 anos, quando, por pura brincadeira, armaram um trempe na pracinha e ofereceram a uns poucos curiosos feijão, toucinho e arroz. Um litro de cachaça animou a cantoria de viola que entrou madrugada adentro. E sobre esse assunto mais não dizem. Os velhos tropeiros preferem não corromper a memória do tempo.

Hora de partir. Como que se despedindo, a mula Jeitosa risca o casco na pedra. Ditinho se volta. É tudo lembrança…



Com tanta atividade foram semeando pelo caminho os ‘encostos’, pousos em pasto aberto que depois se transformaram em ‘ranchos’, abrigos já construídos, pontos de partida para a formação de vilas e povoados. Em torno do movimento das tropas foram surgindo novas profissões: o peão domador, o ferrador, o coureiro, o rancheiro, o aveitar, uma espécie primitiva de veterinário.


João, Josias, Ditinho e Joaquim não sabem, mas foi nos cascos das mulas que durante dois séculos a riqueza do Brasil circulou. Os destemidos tropeiros, mensageiros do Brasil colônia, expandiram fronteiras, criaram vilas e cidades e integraram um país continental. Não fossem eles, a fome que assolou a região mineradora em 1697, 1700 e 1713 teria dizimado a multidão que se dirigiu às Minas Gerais atraída pela descoberta de ouro e diamantes. Se havia braço para o garimpo não havia para a lavoura. A salvação chegou no lombo das tropas que circulavam sem parar transportando alimentos, garantindo o trabalho extrativista. Os tropeiros chegavam trazendo comida e saíam carregados de ouro em direção aos portos do Rio de Janeiro e de Parati, de onde voltavam com os produtos manufaturados vindos de Portugal.


Naqueles tempos, quem se aventurasse a desbravar os caminhos do Brasil sabia que teria que levar a fome na garupa. Não havia alimento ao longo do percurso e os tropeiros garantiam a sobrevivência levando nas mochilas farinha de mandioca bem seca que comiam misturada à carne-de-sol que o próprio gado transportado fornecia. Quando a fome apertava, o jeito era apelar para os bichos-de-taquara, chamados gusanos, e para os içás torrados.


Enfrentando inimagináveis perigos e privações, o tropeirismo, ao lado das entradas e bandeiras, fez parte da grande movimentação humana que teve início no século 16. E não foi pequena sua contribuição. Empurrando fronteiras, os tropeiros definiram o mapa do Brasil integrando as regiões de um país imenso. Sem eles, a exploração das jazidas de ouro e diamantes seria impossível e a atividade pecuarista não teria se alastrado do Sul para São Paulo e depois para Mato Grosso e Goiás.

Mesmo sem saber, João, Josias, Ditinho e Joaquim fazem parte dessa história.

fonte: Revista Globo Rural


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