O tropeiro como propagador cultural e mola mestra da cultura cafeeira no século XIX

por Filipe Cordeiro de Souza Algatão

O século XIX no Brasil foi marcado pela alteração no modo de vida da população em geral, saímos da condição de colônia de exploração do império português e lançamo-nos, a partir de 1822, com a independência política do país, a um processo de intensa transformação, que forneceria subsídios para a modernização brasileira posterior. Nesse contexto, o eixo político-econômico do Brasil havia-se deslocado da região Nordeste para a atual Sudeste, sobretudo para o Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

O Tropeirismo, atividade praticada no Brasil desde o século XVIII, encontrou terreno fértil para sua fase de maior expansão, pois, além do deslocamento do eixo político do Brasil para o sudeste, a cultura cafeeira, responsável pelo grande surto de desenvolvimento brasileiro na segunda metade do século XIX, começava a espalhar-se por essa região.


O tropeiro foi de fundamental importância no período, pois, em tempos de escravidão e de uma sociedade senhorial pautada pela moral católica de valorização do ócio, o transporte de mercadorias, visto como algo marginal, ficou a cargo de homens livres, pobres, que o desempenharam por ser uma forma de garantir sua subsistência.

O papel do tropeiro, no século XIX, pode ser visto como a síntese entre dois fatores: tecnologia rudimentar e grande empreendimento mercantil, pois, devido ao traçado das estradas que conectavam o litoral ao interior do Brasil – mal conservadas, extremamente estreitas e sinuosas –, apenas a mula de carga reunia condições de trafegar pelos tortuosos caminhos que serviam ao escoamento da produção cafeeira para os portos, de onde seguiam para os mercados consumidores no exterior (FRANCO,1983).

As dificuldades apresentadas durante os trajetos, somando-se à necessidade de paradas para descanso dos animais e dos próprios condutores, obrigaram que se estabelecessem ranchos para abrigo da tropa ao final de cada dia de jornada, cuja distância percorrida variava entre 18 e 25 quilômetros. Esses ranchos, em muitos casos, eram construídos pelos fazendeiros para que os tropeiros que transportavam seus produtos pudessem descansar e seguir viagem na madrugada seguinte.

Depois de estabelecidos os ranchos, os fazendeiros não tardavam em erguer uma capela, símbolo de sua devoção, em seguida instalava-se uma pequena venda para suprir as necessidades básicas dos tropeiros e viajantes em geral que por ali trafegassem. Depois, algumas famílias fixavam moradia no entorno e estava dado o ponto de partida para o estabelecimento de mais uma vila no interior do país. Muitas das pequenas vilas de outrora constituíram prósperas cidades como Campinas e Jundiaí em São Paulo e Pouso Alegre em Minas Gerais (ALMEIDA, 1981).

A região que ilustra com maior propriedade essa particular dinâmica do tropeirismo associada à expansão cafeeira é o Vale do Paraíba, devido a sua proximidade com a capital administrativa e política do Império e a grande geração de riquezas para o país no período mencionado.
As primeiras fazendas de café da região foram estabelecidas no lado fluminense do Vale do Paraíba, em algumas cidades como Barra Mansa, Barra do Piraí, Valença e Vassouras. Em pouco tempo, a onda cafeeira tomou os espaços agricultáveis do sul fluminense e adentrou o território paulista através das cidades limítrofes de Bananal e Ubatuba, além de Ilha Bela (MILLIET, 1982).

Os plantadores de café da região tornaram-se a elite local e constituíram a nobreza do período imperial, tamanhos foram a riqueza que produziam e o seu faustoso modo de vida. O tropeiro, homem simples, foi indiretamente o responsável pela manutenção do modo de vida da elite, pois era através de suas tropas que se transportava a produção dos fazendeiros, que comercializada, sobretudo no porto do Rio de Janeiro, lhes rendia as divisas necessárias para enviar seus filhos à Europa e prepará-los para ingressar no cenário político após seu retorno.

Apesar desse forte vínculo com os fazendeiros, os tropeiros gozavam de certa autonomia no contexto das cidades; o que os ligava ao fazendeiro era apenas a questão comercial, tanto que a eles era facultativo negociar tanto com um fazendeiro específico quanto com seus principais desafetos políticos.

No lado paulista do Vale do Paraíba, a rede de caminhos pelos quais trafegavam já se encontrava em certa medida mais consolidada, já que foram aproveitados caminhos abertos por bandeirantes e posteriormente utilizados pelos tropeiros que se dirigiam às minas de ouro de Vila Rica pela chamada Estrada Real.

Nesse contexto, chama atenção a região do Vale Histórico, localizada na Serra da Bocaina, a primeira região cafeeira do estado, cuja cidade conhecida como sua ‘capital’ é Bananal, berço de abastadas famílias de cafeicultores e responsável pelas maiores produções de café do planeta no decênio de 1850.
As cidades da região, Silveiras, Areias, São José do Barreiro, Arapeí (emancipada de Bananal nos anos 1990) e Bananal, nasceram a partir de ranchos de tropa à beira do caminho aberto para ligar a região da Vila de Nossa Senhora da Piedade de Lorena e o Rio de Janeiro, sendo uma variação da Estrada Real (CORDEIRO, 2009).

A ocupação de todas essas deu-se em acordo com a vocação natural de ranchos de tropa: agregar serviços e gentes de modo a que em todas essas paragens fosse possível o abastecimento e a consequente manutenção da tropa.

O fato de ter sido aquela região a primeira a conhecer o surto cafeeiro no estado também representa um diferencial, principalmente no caso de Bananal, já muito próxima, inclusive, da capital do Império, para onde afluíam as abastadas famílias locais.

As fazendas de café da cidade foram dotadas de ricos adornos, prova da opulência no modo de vida dos barões locais. A cidade acanhada ganhou prédios luxuosos, com técnicas de construção inspiradas nas construções da corte, mostrando que a nobreza rural mantinha íntimo contato com a urbe, acompanhando-a em todas as suas tendências.

Outra cidade da região, São José do Barreiro, teve seu destino próximo ao da vizinha Bananal, no entanto, poucos de seus ricos fazendeiros chegaram a serem agraciados com títulos nobiliárquicos.
As outras cidades do Vale Histórico, apesar de envolvidas com a cafeicultura, não despontaram devido ao enriquecimento de seus cidadãos. Areias teve férteis fazendas de café no estado em 1850 (MILLIET,1982), mas chegou a ter apenas membros da Guarda Nacional[*1]. Silveiras, a última das cidades mencionadas, representa um diferencial e aproxima-se do tipo que tratamos neste artigo, a cidade também não viu sua elite converter-se em titulares do Império, no entanto cristalizou sua vocação como ponto de prestação de serviços a tropeiros e viajantes rumo ao interior do país.

Em torno do rancho de tropas, foi erguida uma capela em louvor a Nossa Senhora da Conceição no final do século XVIII. No entanto, com a cultura cafeeira do século XIX é que a vila desenvolveu-se, graças à figura do tropeiro – um dos tipos humanos daquele século que mais teve chance de ascender, em função de exercer uma atividade considerada residual, mas de vital importância para a manutenção do sistema econômico vigente (FRANCO, 1983).

A rotina de cidades como Silveiras e muitas outras pelo vasto interior do país esteve intimamente vinculada ao ciclo do Tropeirismo; nas cidades cuja vocação primeira era o abastecimento, tudo girava em torno da tropa, da produção de bens de consumo à da ferramentaria, inclusive as relações sociais eram ditadas em função dessas atividades, sendo impensável, no cenário urbano ou rural, o desenvolvimento de alguma atividade que nada tivesse a ver com a tropa.

A figura do tropeiro tornou-se emblemática e o Vale do Paraíba é o cenário por excelência para a descrição da atividade e da influência dela no modo de vida dos habitantes, porque ali ela está intimamente ligada, por meio de seus valores culturais e de sua participação, à viabilização da economia local.
Assim como o Vale Histórico, outras regiões cafeeiras também despontavam, como o médio Vale do Paraíba Paulista, sendo suas principais cidades à época Taubaté, Jacareí, Pindamonhangaba, Guaratinguetá e Lorena.

Essa região, cujas cidades fundadas eram fruto das empreitadas bandeirantes na região rumo às Minas Gerais, consolidara-se, no século XIX, como importante entreposto comercial e de abastecimento de tropas. Igualmente a Bananal, seus prósperos fazendeiros não tardaram a serem agraciados com títulos nobiliárquicos, sendo não raras as visitas do Imperador em pessoa a algumas fazendas de nobres considerados seus amigos na região, como o Visconde de Tremembé[*2] (1830-1911), que foi cafeicultor e avô do escritor Monteiro Lobato.

As cidades mais à beira do Rio Paraíba do Sul, no estado de São Paulo, utilizaram seus espaços agricultáveis quase em sua totalidade, dedicando-se à cultura daquela rubiácea. Os nobres locais, com o dinheiro obtido, dotaram suas cidades com infraestrutura somente comparável com a que havia no Rio de Janeiro, capital imperial; caso da cidade de Lorena (SOBRINHO, 1967).

Pindamonhangaba, outra cidade da região que merece destaque, a maior possuidora de barões no Brasil imperial, tem, em seus palacetes, marcas de que o café produziu sua civilização e legou aos que nela viveram a segurança material de que necessitavam, inclusive para a manutenção do poder.

As tropas foram amplamente utilizadas na região, pois, devido à crescente produção – que batia recordes ano a ano a custa de um plantio desordenado que não levava em conta nenhuma técnica de preservação do solo –, as mulas eram requisitadas constantemente para transportar o café até o porto mais próximo.

As tropas que levavam os produtos rurais para serem vendidos também eram responsáveis por trazer ao interior os bens de consumo que vinham do exterior, já caídos no gosto popular, como tecidos, itens de toucador, ferramentas, entre outros.
Não apenas as classes abastadas, mas todos os que viviam nas cidades interioranas, em certa medida, consumiam os produtos trazidos pelos tropeiros, já que não havia fábricas no Brasil. Todas as “novidades” vindas do exterior encontravam ampla aceitação e assimilação no meio rural brasileiro.
Tanta inovação e o uso indiscriminado do solo cobraram um preço caro, já no decênio de 1870, a terra do Vale do Paraíba dava seus primeiros sinais de esgotamento, a produção recorde dos anos anteriores dava lugar a safras cada vez menores, principalmente na região do Vale Histórico, cuja exploração fora anterior.

Somando-se a esse fato, há também a questão da mão de obra majoritariamente escrava empregada na lavoura. Nesse ponto, há outro entrave ao desenvolvimento da região. Desde a Lei Eusébio de Queiróz[*3], houve acentuado declínio nos braços disponíveis para serem empregados no cultivo e na colheita do café, no entanto, essa situação adversa só foi mais forte posteriormente.

Além da mão de obra escassa e do declínio das safras em virtude do esgotamento do solo, outra frente de produção cafeeira despontava no estado, a região do Oeste Paulista, que utilizava uma terra de qualidade superior à do Vale do Paraíba, empregava técnicas mais modernas de cultivo e trazia uma novidade: mão de obra livre, na maior parte composta de imigrantes que vieram ao Brasil fugindo dos conflitos e da fome que os assolavam na Europa.

O Vale do Paraíba, com seu solo desgastado, mão de obra escrava e produção declinando ano a ano não teve condições de competir em igualdade com a terra nova, com produção abundante e mão de obra livre. Em 1889, às portas da República, a safra de café do Vale do Paraíba apodreceu no pé, pois não havia quem colhesse a já diminuta produção. Os fazendeiros mais ricos seguiram o rumo da “civilização do café”, que não conhece limites, desgasta o solo e segue levando a onda de progresso por onde passa e legando a miséria e a estagnação para os que ficam (LOBATO, 1978).

Nesse contexto, os tropeiros tiveram ativo papel, por mais que o sucesso de sua atividade acabasse contribuindo para seu ocaso, a outrora crescente produção cafeeira não tardou a demandar um meio mais rápido e eficiente de transporte de mercadorias – nesse caso o trem – e o tropeiro continuou a fazer o serviço de transporte intermediário entre as fazendas e a cidade.
A ferrovia chegou ao Vale do Paraíba ao final da década de 1870, fase em que a produção já se encontrava em declínio, mas, como o transporte não beneficiou todas as cidades da região, garantiu ao tropeirismo certa sobrevida.

No Vale Histórico, por exemplo, apenas Bananal contou com ramal férreo, mesmo assim já próximo à Proclamação da República, fase em que o café já praticamente havia desaparecido das grandes fazendas locais.

A produção rural das cidades que não contaram com ferrovias passando por seu território continuou a ser transportada em lombo de mulas, com jornadas mais curtas, em alguns casos sendo possível que em apenas um dia de jornada os produtos fossem embarcados para São Paulo ou para o Rio de Janeiro.

O tropeiro, durante o século XIX, como foi dito, mostrou-se um agente articulador de duas realidades, a vivida no litoral, de influência externa, de contato maior com os avanços tecnológicos, e a realidade do interior, ainda presa ao passado colonial, cultivando as tradições transmitidas e assentadas num modo de vida menos influenciado pelas grandes cidades.

O que se percebe é que, graças à existência da figura do tropeiro, se quebrou um hiato entre ambas as realidades; devido à presença desse agente, os dois mundos conectaram-se, as novas tendências encontraram penetração no interior das províncias, as cidades do interior modernizaram-se. Nesse caso, o tropeirismo cumpriu seu papel de não apenas ser um transportador de mercadorias, mas também de tendências, modismos, novos hábitos.

O tropeiro no século XIX foi o responsável pela transmissão da cultura brasileira em todos os cantos pelos quais passou, o que não é pouca coisa dadas as continentais dimensões do nosso país.

Tratando o Tropeirismo juntamente com o ciclo do café, observamos que esse entrelaçamento resultou num fenômeno inédito no Brasil até então: a nação produziu um novo modo de vida, inspirado nas nações europeias, mas que possibilitou a absorção de novas tecnologias ao país. Os filhos desses tropeiros, graças às divisas obtidas pelo pai, puderam estudar e, juntamente com os filhos dos nobres cafeicultores, compuseram a cena política brasileira no Segundo Reinado e nos primeiros tempos da fase republicana.

O Tropeiro, apesar de enquadrado como um tipo humano do século XIX, sujeito às relações de dominação social, ao quebrar essa lógica difundindo a cultura brasileira e agindo autonomamente, mesmo num período em que praticamente todos os negócios de alguma forma eram “regulados”, prestou-nos um grande favor: grande parte do desenvolvimento do interior só foi possível graças a esse ousado empreendimento mercantil, que constituiu cidades, atraiu povos e gentes, consolidando a expansão demográfica e espacial do Brasil.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Aluisio de. Vida e morte do tropeiro. São Paulo: Martins; EDUSP, 1981.

CORDEIRO, Filipe. O culto à memória e a memória negada: um estudo sobre os tropeiros no Vale Histórico. In: SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA FESPSP, 1., 2009, São Paulo. Papers… São Paulo, 2009. Disponível em: . Acesso em: 8 jan. 2010.

FLORES, Moacyr. Tropeirismo no Brasil. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1998.

FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 3. ed. São Paulo: Kairós, 1983.

LOBATO, Monteiro. Cidades Mortas. 20. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
MAIA, Thereza Regina de Camargo. O passado ao vivo. São Paulo: FDE, 1988.

MAIA, Tom; MAIA, Thereza Regina de Camargo. O folclore das tropas, tropeiros e cargueiros no Vale do Paraíba. Rio de Janeiro; São Paulo; Taubaté: MEC-SEC; FUNARTE; Instituto Nacional do Folclore; Secretaria de Estado da Cultura; Univ. de Taubaté, 1981.

MILLIET, Sérgio. O roteiro do café e outros ensaios. 4. ed. São Paulo: Hucitec; Instituto Nacional do Livro, 1982.

SOBRINHO, Alves Motta. A civilização do café (1820-1920). São Paulo: Brasiliense, 1967.


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