Palavras de homenagem aos tropeiros

ceicaRecebemos da Prof.ª Dr.ª Maria da Conceição de Almeida – Ceiça Almeida (GRECOM/UFRN), parceira de trabalho da Ong Carreiro de Tropa (Catrop), a mensagem abaixo, que foi lida durante a 4ª Roda de Conversa sobre Tropeirismo e que agora compartilhamos com todos aqui no Blog.

Nossos agradecimentos à Ceiça e ao GRECOM pelo apoio e contribuições fundamentais ao nosso trabalho, especialmente com reflexões tão relevantes sobre o reconhecimento e valorização dos “saberes da tradição” e dos “Intelectuais da Tradição”.

Palavras de homenagem aos tropeiros

(Contribuição ao evento de Vitória da Conquista)

 

Maria da Conceição de Almeida

Grupo de Estudos da Complexidade (Grecom)- Natal\Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

 

“Nem o vento, nem o fogo,

nem os pássaros em vôo

conhecem o repouso”. Michel Serres

Durante muito tempo alimentamos a ideia de que o conhecimento científico seria capaz de resolver todos os problemas do mundo. Essa ilusão está hoje em ruínas e começa a se desmoronar como um castelo de cartas de um baralho.

Vivemos numa sociedade com muita tecnologia, muitas informações, descobertas científicas fantásticas e o fim das fronteiras geográficas. Mesmo assim, a cada dia e em todos os lugares do planeta, aumenta o número de excluídos do chamado “Progresso”. Homens, mulheres e crianças deixam seus lugares de origem para se aventurar em cidades desconhecidas que aparecem para eles como um paraíso e, quando aí chegam se sentem como passarinhos sem ninho, como árvores sem raízes. A cada dia aumenta o número de pessoas com depressão. Os amigos se tornam cada vez mais raros, porque vale mais o que possuímos do que as palavras de afeto, conforto e solidariedade que podemos dizer uns aos outros.

O que há de errado com a chamada civilização? Por que estamos todos nos acostumando com um mundo visto apenas na tela de um celular ou de um computador? Onde estão os andarilhos que se deslocavam em seus cavalos a desbravar cenários diversos, a conhecer modos de viver diferentes, a fazer amizades marcadas pela gratuidade, pela simples simpatia?

Essas perguntas têm muitas respostas e certamente não daria aqui para falar das diversas causas que tornam nosso mundo, nossas cidades e nossa vida pessoal um pouco mais triste e sem esperanças. Mas, certamente o modo de viver de um personagem importante da nossa historia pode nos fazer pensar sobre a sociedade atual e, sobretudo, perguntar: qual futuro queremos plantar hoje para as crianças e jovens que estarão nesse planeta quando nós já estivermos servindo de adubo para as plantas?

Estou me referindo ao Tropeiro, personagem que honra a história de Vitória da Conquista – cidade que aprendi a gostar tanto.

Como um herói de histórias reais, esses homens desbravaram territórios e, como no mito de Hermes, eles se tornaram mensageiros a transportar alegrias, alimentos, cartas e conhecimentos experimentados na vida – saberes da tradição que muitas vezes valem mais do que os conhecimentos dos bancos escolares e das universidades.

No dia 26 de outubro de 2011 (Dia Nacional do Tropeiro) estive aqui e, por uma feliz coincidência, a Câmara Municipal de Vitória da Conquista estava outorgando o título de “Intelectual da Tradição” ao Sr. Manoel Bonfim – carinhosamente chamado de Mané Rico. Como eu tenho, há muitos anos, construído essa ideia de intelectual da tradição, por generosidade da amiga Maris Stella fui eu a entregar o título a Manoel Bonfim – o que me encheu do bom orgulho e alegria.

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Prof.ª Ceiça Almeida entrega título de “Intelectual da Tradição” ao Tropeiro Manoel Bonfim (Mané Rico) durante Audiência Pública em Comemoração do Dia Nacional do Tropeiro (26/10/2011) promovida pela Catrop na Câmara Municipal de Vitória da Conquista. Foto: Acervo da Catrop.

Hoje, aqui, vocês estão reunidos para conversar sobre os tropeiros. Parabenizo os amigos Saulo Moreno Rocha e Maris Stella Schiavo Novaes pela iniciativa desse evento.

Essa evento dedicado ao tropeirismo tem pra mim dois sentidos muito especiais. O primeiro sentido é o da RESISTÊNCIA a um modo de viver que em nada nos torna mais humanos e mais felizes. O segundo sentido é o da HOMENAGEM a uma forma de ser e de pensar que pode servir hoje de alimento para a construção de uma sociedade mais justa e mais digna, na qual homens, mulheres e crianças possam ser mais felizes.

Ceiça Almeida,

                                                tarde do dia 17 de fevereiro de 2017

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